“Comparar Netflix com TV paga é covardia”, diz Alberto Pecegueiro em recente entrevista


Alberto Pecegueiro diretor geral da Globosat. (Divulgação)
Em outubro, a Globosat completa 25 anos no País. Programadora de canais como GNT, Multishow, SporTV e Gloob, a empresa do Grupo Globo é hoje um dos principais players do setor de TV paga. Apesar de sua consolidação no mercado, o cenário é muito diferente de quando surgiu a empresa, a começar pela multiplicação de players de conteúdo que disputam audiência e verbas no mercado, como Netflix. Mas Alberto Pecegueiro, diretor- geral da Globosat, considera a comparação até injusta… para as novas plataformas. Em entrevista ao Meio & Mensagem, o executivo detalha esta e outras questões relacionadas ao mercado de TV paga, que voltou a crescer em abril e reitera que o setor, que se reúne até dia 1º de julho no Congresso da Associação Brasileira de Televisão por Assinatura (ABTA), vive uma concorrência ampla, mas possui as melhores condições possíveis de ser uma alternativa publicitária moderna e eficiente.

Confira um trecho desta entrevista:

Meio & Mensagem — Hoje, uma das principais questões dos canais de assinatura são os serviços VOD. Qual acredita ser o reflexo no mercado de plataformas como o Netflix?

Alberto Pecegueiro — A possibilidade de assistir o que e na hora em que quiser é uma comodidade de imenso valor para o espectador e por isso há algum tempo temos oferecido isso para o assinante. O Netflix tem uma boa oferta de conteúdo, mas, se comparar com a da TV paga, não dá nem para a largada, é covardia. Se o conjunto das programadoras da TV paga segue na tendência de oferecer seus conteúdos sob demanda, seu conjunto de séries e filmes é muito maior que o do Netflix, fora o fator da janela. No fundo, se compararmos exclusividade e produto, estaremos comparando um esforço digno de louvor do Netflix com seus originais, contra a soma de todos os estúdios de cinema de Hollywood na produção de suas séries. A briga é feia, dedo no olho, puxão de orelha. O Netflix é um bom produto, mas compará-lo com a TV paga não é justo com ele. O ecossistema de TV paga no mercado nacional é muito robusto, eficiente do ponto de vista de venda, entrega, manutenção de clientes. A produção independente no Brasil depende disso. É um caso de sucesso visível e tem um futuro longo pela frente. Não se percebe nenhum tipo de buraco no dique que o Netflix possa causar. Um produto como ele é complementar. Um percentual majoritário de seus assinantes são antes assinantes de TV paga.

M&M — A TV por assinatura registrou um crescimento importantíssimo nos últimos dez anos, mas recentemente teve queda. Como reverter o quadro?

Pecegueiro — Temos aumentado brutalmente nosso investimento em programação, quer porque acreditamos que vale a pena, quer porque vivemos em um ambiente de concorrência que nos pressiona a isso. A responsabilidade primária pela flutuação da base, que esperamos que seja para cima, é dos operadores. O mercado perdeu cerca de 3% a 5%, dependendo do período de comparação, desde o início de 2015. Se olharmos a economia brasileira e compararmos com o que aconteceu com qualquer segmento — construção civil, automóveis, vestuário, shopping centers, mídia impressa —, a gente há de convir que uma perda como esta é quase um crescimento. Mostra como hoje este é um item de primeira necessidade para as famílias brasileiras. É importante considerar que a perda aconteceu não porque o assinante não queria mais ou resolveu assinar o Netflix. A expressão que a indústria começou a usar para isso é chamada desconexão involuntária: aquele cara que realmente não consegue pagar fica inadimplente e a operadora é obrigada a cancelar. Há demanda para mais: curiosamente o nível de venda dessas operadoras neste período não caiu. A base diminui porque o nível de cancelamentos subiu pela impossibilidade de pagamento. Abril foi o primeiro mês que voltamos a ter crescimento de base, espero que seja uma tendência.

M&M — Em sua visão, quais os principais desafios para o crescimento do setor? 

Pecegueiro — Entendemos flutuações de consumo ligadas aos aspectos macroeconômicos brasileiros, mas o nível de queda de consumo de uma série de setores da economia foi agravado por uma questão de crise de confiança. Foi um entrave e esperamos que esteja saindo de cena. Ainda que o cenário macroeconômico não vá se resolver em um curto tempo, a melhoria da expectativa do consumidor em relação ao País pode gerar uma retomada, destravar a economia. Outra coisa que hoje nos motiva muito é que vemos possibilidades muito grandes de ganho de eficiência por meio de tecnologia para a TV paga como veículo publicitário. Ela tem contato físico com o assinante, estamos na sua casa, com o decodificador junto com as operadoras. Essa presença física já possibilita, por meio de tecnologias em desenvolvimento, veiculações publicitárias quase que individuais. Poderemos direcionar mensagens publicitárias por interesses e áreas específicas, até por cômodos dentro de uma casa em um futuro próximo. Já estamos bem adiantados na seleção de parceiros para aplicar estas tecnologias no mercado brasileiro. É um horizonte de curto prazo no qual estamos investindo e nos empolga muito, a chamada publicidade programática para TV. Já os desafios continuam os de sempre: a internet aumentou o número de jogadores no negócio de vídeo, mas no picadeiro da mídia brasileira a TV paga é, dos grandes segmentos, o único que já estava exposto à concorrência internacional. Continuará sendo um desafio crescente porque o mundo está cada vez mais globalizado. A barra só fica mais alta e mais difícil de enfrentar.

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