A diretora Letícia Simões volta a mexer no baú de memórias de sua família em A Vida Secreta de Meus Três Homens, fábula histórica que interroga a identidade do Brasil a partir de sua história e herança de violência. O longa-metragem chega aos cinemas no dia 5 de março, com distribuição da Embaúba Filmes, e promove o encontro de três fantasmas — inspirados nas figuras do avô, do pai e do tio da cineasta — reunidos em torno de uma pergunta fundamental: como chegamos ao Brasil de hoje?
O filme teve sua première na Mostra Tiradentes em 2025 e percorreu uma série de festivais no Brasil e no exterior, como o Hot Docs e o RIDM – Montreal International Documentary Festival, no Canadá; além do CineBH.
A ''narradora'', personagem vivida por Nash Laila, é quem conduz o encontro com os fantasmas de Fernando, boêmio pai de família e colaborador da ditadura militar; Arnaud, adolescente que se envolveu com um grupo de justiceiros; e Sebastião, fotógrafo negro e gay que perdeu o amor de sua vida. ''O que une esses três homens, na minha visão de documentarista, pesquisadora, poeta, é a experiência da violência'', explica Letícia Simões, que conta que a semente do filme surgiu durante o processo de pesquisa de Casa, seu ensaio de autoficção que aborda conflitos geracionais a partir do embate da cineasta com a mãe e a avó.
''Descobri as fotografias feitas por Sebastião, que cobriam praticamente metade do século XX. Imagens de pessoas que eu não conhecia, de um passado do qual minha mãe buscava insistentemente se afastar. Durante as exibições do filme, outras netas e netos, sobrinhas e sobrinhos vieram me abordar porque reconheceram seus avôs, avós, tios e tias muito mais jovens — e tampouco conheciam essas fotografias'', relata a diretora. Segundo ela, esses registros também deram início à investigação sobre a suposta vida secreta de Fernando: ''Através de um exercício de encarar uma imagem e escutá-la, interrogá-la, atravessá-la. Mesmo sabendo que uma imagem, por fim, é silenciosa. Só nos resta indagar, criar os acontecimentos em torno dela.''
TRAJETÓRIA
Com uma trajetória consolidada no cinema autoral brasileiro, Letícia Simões já dirigiu sete longas-metragens, entre eles O Chalé é uma Ilha Batida de Vento e Chuva e Nós, obras que transitam entre memória e imaginação, ficção e documentário, o íntimo e o político. ''Fazer um filme é um pouco dar espaço ao mistério: da amizade, da criação, da beleza, da invenção. Tentamos, eu e toda a equipe envolvida, criar outras saídas, através do cinema, a partir desses registros históricos, documentais, violentos. Durante o processo, compartilhamos, descobrimos, nos reinventamos. E talvez essa seja a grande resposta: está em nós (e nunca saiu) a possibilidade de recriar o mundo o tempo todo'', conclui.
Produzido pela Carnaval Filmes e pela Poema Tropical, A Vida Secreta de Meus Três Homens traz Guga Patriota, Giordano Castro e Murilo Sampaio como o trio do título. O longa estreia nos cinemas brasileiros no dia 5 de março, com distribuição da Embaúba Filmes.