Camila Appel comenta disputas e viradas judiciais em 'O Testamento: O Segredo de Anita Harley'

Foto: Hudson Senna

Uma herdeira em coma, um império bilionário em jogo, uma batalha judicial que já dura quase uma década e que expõe laços de afeto, poder e fortuna. Esses são os elementos centrais da série documental 'O Testamento: O Segredo de Anita Harley', novo Original Globoplay, que estreia nesta segunda-feira, dia 23 de fevereiro. Com produção do Núcleo de Documentários dos Estúdios Globo, os cinco episódios chegam juntos ao streaming e o primeiro estará disponível para todo o público, incluindo não assinantes. A obra conta a trajetória empresarial e familiar complexa de Anita Harley, maior acionista individual das Casas Pernambucanas – uma das redes de varejo mais tradicionais do país –, e apresenta os bastidores das disputas envolvendo duas ex-funcionárias da empresária e o filho de uma delas em torno de sua curatela e herança avaliada em mais de R$ 1 bilhão. 
 
Criada no Recife, na década de 1940, Anita cresceu cercada pela tradição e influência da família no varejo nacional: a empresária é filha de Helena Groschke Lundgren e bisneta de Herman Lundgren, fundador da Pernambucanas. Nos anos 1990, após a morte da mãe, assumiu a presidência da companhia. No entanto, um evento inesperado mudou o rumo da sua carreira. Desde 2016, está em coma depois de sofrer um acidente vascular cerebral (AVC), desencadeando uma batalha judicial em volta da sua curatela – encargo legal atribuído a uma pessoa para representar alguém civilmente quando este não possui capacidade para fazê-lo, como a administração de seus bens. 
 
Nessa complexa batalha judicial, o documentário apresenta os principais envolvidos: de um lado, Cristine Rodrigues, secretária de confiança de Anita e designada como responsável por seus cuidados em testamento vital – documento em que uma pessoa pode expressar desejos caso esteja incapacitada, como em um coma; de outro, Sônia Soares (conhecida como Suzuki), funcionária que residia na mansão da herdeira e que se apresenta como companheira de Anita.  
 
O conflito entre elas se intensifica a partir do anulamento do testamento vital, como resultado de uma ação movida por Suzuki que retirou Cristine da curatela e a impediu de visitá-la no hospital. Nessa disputa também entra Arthur, filho de Suzuki e criado desde pequeno na casa da empresária. Ele ganha, judicialmente, o reconhecimento do vínculo de maternidade socioafetiva com Anita, tornando-se seu herdeiro direto e curador. Posteriormente, em um depoimento no tribunal, Cristine revela que Suzuki não poderia ser a esposa de Anita, porque a verdadeira era ela. 
 
Para organizar essa complexa teia de informações para o público, a série apresenta depoimentos de personagens-chave dessa trama, e reúne relatos de advogados, amigos e familiares. ''Fiquei muito envolvida com o desafio da investigação de uma disputa judicial propriamente dita e tentando convencer as pessoas envolvidas a falarem – o que foi, sem dúvida, o mais difícil de tudo'', conta a diretora Camila Appel. Anelise Franco, produtora, destaca este como principal desafio de produção: ''A adesão ao projeto exigiu um processo de negociação longo, delicado e complexo. Em alguns casos, levando mais de dois anos até que a participação fosse confirmada'', explica.   
 
A trama, marcada pelas versões conflitantes e sucessivas reviravoltas, conduz o espectador por processos que ora confirmam, ora anulam relações de afeto e legitimidades jurídicas – expondo, inclusive, a fragilidade de documentos como o testamento vital. ''É uma chuva de versões sobre cada detalhe. Então, é um vai e vem na nossa cabeça, porque a hora que você acha que está construindo um caminho, de repente vem alguém e fala alguma coisa e te traz um outro lado'', completa Dudu Levy, codiretor. 
  
Utilizando-se ainda de documentos e análises jurídicas de dezenas de processos, 'O Testamento' também recorre a dramatizações que não têm a intenção de reconstruir os fatos de forma literal, mas ajudar a traduzir o emaranhado de versões e levar o espectador junto nas viradas da narrativa – que são muitas.  ''É uma trama em movimento, e isso também é um desafio narrativo. A cada nova decisão judicial, a história muda de rumo. E é justamente nesse terreno instável que o documentário se constrói'', finaliza a diretora Camila Appel. 
  
A série documental 'O Testamento: O Segredo de Anita Harley', Original Globoplay, é uma produção do Núcleo de Documentários dos Estúdios Globo. A obra tem direção de Camila Appel, codireção de Dudu Levy, roteiro de Ricardo Calil, Camila Appel e Iuri Barcelos. Iuri também assina a pesquisa. A produção é de Anelise Franco, a produção executiva de Fernanda Neves e a direção artística é de Monica Almeida. 
 
Entrevista com a diretora Camila Appel e codiretor Dudu Levy: 
 
1 - Como foi traçar um perfil de Anita sem qualquer entrevista anterior com ela? 
Camila Appel: Foi um desafio grande. Eu procurei todos os amigos próximos dela e parentes. Alguns não aceitaram dar um depoimento para a série documental, mas falar com eles foi muito importante para minha preparação para as entrevistas. Falei com diversos ex-funcionários também, que mesmo não aceitando se expor, foram importantes para a apuração. 
 
2 - Houve uma estética específica pensada para diferenciar as dramatizações? 
Dudu Levy: Nos baseamos muito nos arquivos reais, de fotos. Tentamos ser os mais fiéis possíveis em cenário, caracterização e figurino dos registros reais que tínhamos do hotel, da mansão, do escritório e do hospital. 
 
3 - Além de Cristine, Suzuki e Arthur, temos mais personagens-chave que aparecem nesta história? 
Camila Appel: Temos várias pessoas que reafirmam suas versões, como advogados, familiares e amigos. Mas considero que outro personagem-chave desta história é o Daniel Silvestri, advogado de Suzuki, que se torna um protagonista depois de assumir a presidência da holding que controla a empresa.  
 
4 - Como você espera que o público reaja à série documental? 
Dudu Levy: Espero que o público mergulhe de cabeça nessa história, vivenciando o mesmo emaranhado de versões que a equipe experimentou. É uma trama complexa e instigante. O fato de ser uma série com muitas versões já traz um diferencial para a narrativa. O caso praticamente não foi coberto pela imprensa, principalmente porque os envolvidos e a família de Anita não falavam sobre o assunto. Trazemos as diferentes versões dessa história e detalhes por meio de depoimentos com personagens-chave dessa trama. 

Anderson Ramos

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