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| Daniel Ferro e Rodolfo Abrantes - Foto: Divulgação |
Da fusão inusitada do forró com a potência do rock, emergiu um fenômeno musical que conquistou o Brasil com hinos atemporais e uma energia sem igual. O Raimundos, nascido em Brasília, não apenas dominou as paradas, mas encarnou um espírito de liberdade e irreverência que ressoou por toda uma década. Por trás das plateias lotadas e dos milhões de discos vendidos, se escondiam laços rompidos, frustrações e conflitos pessoais. Para desvendar a intensidade dessa relação, o Globoplay estreia nesta quinta-feira, dia 19 de março, 'Andar na Pedra – A História do Raimundos', nova série documental Original. Os cinco episódios chegam juntos ao catálogo do streaming, com o primeiro disponível e aberto para todo o público, incluindo não assinantes. Produzida pela Ferrorama, a obra desvenda os bastidores de um percurso que redefiniu o rock nacional, pontuado por triunfos e as cicatrizes de laços quebrados.
''Foram dezenas de horas de conversas individuais. Cada integrante tinha seus medos, mágoas e expectativas. Meu objetivo era recontar essa história de uma vez por todas e fazer as pazes com o passado. Desde o início deixei claro que o documentário não seria um conteúdo chapa-branca da banda atual, mas um retrato honesto da história'', conta o diretor Daniel Ferro.
A série documental traça um retrato íntimo dos integrantes do grupo desde a formação da banda no final dos anos 80 até o 'boom' da carreira, dominando as rádios e paradas de sucesso do Brasil na década de 90. Com uma narrativa repleta de reviravoltas, a produção explora os altos e baixos de uma trajetória marcada por sucesso, dinheiro, brigas, pensamentos opostos e, por fim, uma possível redenção. ''O grande diferencial da série é reunir todos – integrantes, familiares, amigos e testemunhas – contando essa história juntos pela primeira vez. E de maneira profundamente pessoal e confessional'', afirma o diretor.
Com depoimentos exclusivos dos membros originais da banda – Rodolfo Abrantes (ex-vocalista original), Digão (guitarrista e atual vocalista), Fred (ex-baterista original) –, e a marcante presença de Canisso (ex-baixista original), que ecoa na série através de áudios de acervo, o documentário oferece um panorama completo e íntimo da trajetória. A narrativa se aprofunda ainda com a participação de familiares, como Adriana Toscano, viúva de Canisso e a Alexandra Abrantes, esposa de Rodolfo, e se estende a colegas músicos que cruzaram o caminho do Raimundos, entre eles Dinho Ouro Preto, Tico Santa Cruz e Marco Britto. Jornalistas especializados e personalidades como Serginho Groisman também contribuem, enriquecendo a produção com múltiplas perspectivas sobre o fenômeno que marcou uma era do rock nacional.
Para Daniel Ferro, a série revisita momentos muito dolorosos do grupo, mas também celebra momentos marcantes. ''O grande drama da produção aconteceu em março de 2023, quando, depois de mais de dois anos de trabalho, o Canisso faleceu. Isso mudou completamente a dinâmica do documentário. Felizmente já tínhamos gravado bastante com ele. Então, existe algo muito particular no documentário: vemos o Canisso vivo, refletindo sobre a própria história, enquanto a narrativa também precisa lidar com a sua morte. Isso acabou dando ao projeto uma dimensão ainda mais forte e emocional", descreve.
Para construir essa narrativa com tamanha profundidade, a produção tem como apoio um vasto acervo de pesquisa, que conta com revistas, jornais, e até mesmo material pessoal do diretor, como canhotos de ingressos e autógrafos da banda na sua adolescência. ''A colaboração de fotógrafos que acompanhavam a banda nos anos 90 e, em especial, de Canisso e sua esposa Adriana, que cederam caixas de fitas gravadas na estrada – muitas nunca digitalizadas –, revelou um verdadeiro tesouro de imagens e áudios inéditos. Quando esse material aparece junto com os depoimentos atuais, funciona como uma máquina do tempo. É como voltar 25, 30 anos – e isso dá uma força enorme para a narrativa", pontua o diretor Daniel Ferro.
'Andar na Pedra – A História do Raimundos' é uma série documental Original Globoplay, produzida pela Ferrorama, com direção, roteiro e produção executiva de Daniel Ferro e produção de PV Cappelli, que também assina como assistente de direção. A direção de fotografia é de Fernando Duarte.
Confira a entrevista com o diretor Daniel Ferro:
1 - Como foi o processo de pesquisa e a jornada para encontrar e resgatar arquivos pessoais tão raros e valiosos?
Daniel Ferro: A pesquisa de arquivo começou muitos anos antes do documentário. Sempre fui leitor voraz de notícias sobre música e acabei guardando muita coisa ao longo do tempo – revistas, jornais, livros. Na vinheta de abertura, por exemplo, aparecem canhotos de ingressos de shows do Raimundos, além de autógrafos que peguei deles nos anos 90 e guardei desde a adolescência. Foi simbólico conseguir colocar isso na série.
2 - Como a trilha sonora da banda foi pensada para dialogar com a história?
Daniel Ferro: O Raimundos tem muitos hits conhecidos, mas também várias músicas que revelam muito sobre quem eram os integrantes, suas origens. Essa releitura de um ponto de vista pessoal de cada um deles foi importante na construção da narrativa.
3 – Quais foram os desafios dessa produção na sua visão?
Daniel Ferro: Um dos maiores desafios do projeto foi reunir, dentro do mesmo documentário, a formação original do Raimundos – Rodolfo, Digão, Fred e Canisso – que deixou de existir em 2001. Quando começamos, apenas Rodolfo e Digão tinham retomado o contato. As outras relações ainda estavam bem estremecidas, o que deixava tudo muito delicado. Mas, ao mesmo tempo, isso virou um trunfo narrativo.
4 - O que você destaca de inédito da série e o que você acredita que surpreenderá o público?
Daniel Ferro: Mesmo sendo uma história já muito comentada ao longo dos anos, sempre existiram lacunas, boatos e versões incompletas. O documentário vai além dos fatos e busca entender os porquês: as motivações psicológicas, as escolhas e suas consequências.
