Documentário Saudades do Rio Doce revisita quase 10 anos da tragédia de Mariana em estreia no SescTV

Dirigido por Claudia Neuber, ''Saudades do Rio Doce'' estreia em 20/3, às 22h, no SescTV.
Foto: Les Films de l’œil sauvage - Claudia Neubern.

O que permanece depois que a lama baixa? Quase dez anos após o rompimento da Barragem do Fundão, em Mariana (MG), o documentário Saudades do Rio Doce, dirigido por Claudia Neubern, retorna ao epicentro de uma das maiores tragédias socioambientais do país para investigar não apenas o que aconteceu em 5 de novembro de 2015, mas o que ainda acontece. Ao deslocar o foco do evento para suas consequências prolongadas, o filme propõe uma reflexão sobre memória, justiça e responsabilidade.
 
Naquele dia, o rompimento da barragem, sob responsabilidade da Samarco, empresa controlada pela Vale e BHP, lançou milhões de metros cúbicos de rejeitos no Rio Doce, provocando mortes, desalojando famílias e atingindo dezenas de municípios em Minas Gerais e no Espírito Santo. O desastre alterou economias locais, comprometeu práticas de subsistência e redesenhou a relação de comunidades inteiras com o território.
 
Com 72 minutos, o documentário articula imagens de arquivo — incluindo registros do momento do rompimento — a depoimentos de moradores, lideranças e especialistas. A câmera se detém nas casas destruídas, nas margens transformadas do rio e nas lacunas deixadas por promessas não cumpridas. Mais do que reconstituir fatos, o filme investiga o presente: como vivem hoje as famílias atingidas? O que mudou e o que permanece suspenso no cotidiano das comunidades ribeirinhas?
 
Inédita na televisão, a produção estreia no dia 20 de março, sexta-feira, às 22h, no SescTV. Entre as vozes ouvidas está Ailton Krenak, líder indígena, ambientalista e membro da Academia Brasileira de Letras, que reflete sobre o significado do Rio Doce para os povos originários e para a memória coletiva da região. Ao falar da destruição, dos mortos e da ruptura de vínculos ancestrais, Krenak insere o debate ambiental em uma dimensão histórica e simbólica mais ampla.
 
Premiado na 16ª edição do Festival Internacional Filmer le Travail!, na França — onde recebeu o prêmio do júri de pessoas privadas de liberdade e reconhecimento da Organização Internacional do Trabalho (OIT) —, Saudades do Rio Doce também acompanha a mobilização de moradores que seguem exigindo reparação. A condenação da mineradora australiana BHP pela Justiça britânica, em 2025, é evocada como parte de um processo ainda em curso, que ultrapassa fronteiras nacionais.
 
Sem recorrer ao excesso retórico, Claudia Neubern constrói um documentário de escuta. A tragédia é tratada não como episódio isolado, mas como processo histórico cujos efeitos atravessam gerações. Ao reunir memória, denúncia e testemunho, o filme reafirma o papel do audiovisual como espaço de reflexão pública.

Anderson Ramos

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