Caminhos da Reportagem exibe especial sobre Eldorado do Carajás nesta segunda (13)

Foto: Divulgação/TV Brasil

O premiado programa Caminhos da Reportagem apresenta, nesta segunda-feira (13), a edição ''O Eterno Abril de Carajás: 30 anos de um Massacre''. O episódio repercute uma das maiores repressões policiais da história do país que resultou em 21 mortes e dezenas de feridos em Eldorado do Carajás. A atração vai ao ar às 23h, na TV Brasil, emissora da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

Cerca de 700 famílias vivem no assentamento ''17 de Abril'', uma área de 18 mil hectares na zona rural de Eldorado do Carajás, no sudeste do Pará. O espaço é o maior fornecedor de leite da região e produz, sem agrotóxicos, diversos alimentos como cacau, açaí e macaxeira. A estrutura conta com áreas de uso comum, como praça, quadra esportiva, associação de moradores e uma escola que é referência na região.

O local é um modelo de política de reforma agrária, fruto da intensa mobilização dos sem-terra. O nome ''17 de Abril'' faz referência ao dia, no ano de 1996, em que ocorreu o maior massacre no campo da história recente do país: o Massacre de Eldorado do Carajás.

A produção do Caminhos da Reportagem ouviu o relato de Maria Zelzuíta, uma das assentadas e sobreviventes. “Eu tenho que dar valor a cada gota de sangue que foi perdida naquela chuva”, lembra. Na época, Zelzuíta participava da marcha organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) para reivindicar a desapropriação da Fazenda Macaxeira, um latifúndio improdutivo da região.

Os sem-terra montaram acampamento na BR-155, no trecho conhecido como Curva do S, e decidiram ocupar a pista para pressionar as autoridades. Com a promessa de que haveria ônibus para levá-los a Marabá, Zelzuíta conta que eles celebraram ao ver os veículos chegarem. ''E vieram os ônibus, mas estavam cheios de policiais'', completa Luzenira Paula da Silva, outra sobrevivente.

De acordo com as descrições, policiais posicionados em ambos os lados da rodovia dispararam contra os manifestantes, primeiro com balas de borracha e, em seguida, com munição letal. Dezenove pessoas morreram no local. Outras duas faleceram posteriormente em decorrência dos ferimentos.

Ação coordenada

Em entrevista ao programa da TV Brasil, o advogado José Batista Gonçalves Afonso, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Marabá, atribui o massacre às ordens do então governador do Pará, Almir Gabriel, em conjunto com o secretário de Segurança Pública da época, que determinou que a PM desocupasse a estrada ''a qualquer custo''. O julgamento do caso terminou em 2004 com apenas duas condenações: a do coronel da PM Marcos Colares Pantoja, comandante do batalhão de Marabá, e a do major da PM José Maria Pereira de Oliveira, comandante da operação. Pantoja morreu em 2020, de Covid-19, enquanto cumpria prisão domiciliar.

''Meu entendimento é de que apenas os policiais militares que estavam no palco dos acontecimentos deveriam ser responsabilizados criminalmente. A questão política não cabe ao Ministério Público'', diz o promotor do Ministério Público do Pará (MPPA), Marco Aurélio Lima do Nascimento, autor da denúncia à Justiça. O MPPA chegou a apresentar recursos a tribunais superiores para buscar a condenação de todos os 155 policiais que participaram da ação, mas a sentença inicial foi mantida.

Repercussão

O massacre teve repercussão internacional e deu visibilidade ao debate da reforma agrária. No entanto, a violência no campo ainda é uma realidade no Pará, estado que lidera o número de assassinatos em conflitos agrários no Brasil. Dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) mostram que, entre 1985 e 2022, o estado registrou 26 massacres e 125 pessoas assassinadas.

Como fruto dessa trajetória, a assentada Sara Ramos de Sousa tornou-se uma liderança entre os sem-terra. Formada em medicina, ela busca seguir o exemplo dos mais velhos na luta pela terra. ''Não estou dizendo que quero um caminho fácil, mas um caminho com menos injustiça'', defende.

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