Entre luxo, afeto e contraste social, cenários de 'Quem Ama Cuida' refletem São Paulo contemporânea





Fotos: Globo/Fábio Rocha

A produção de 'Quem Ama Cuida', nova novela das nove, parte de um conceito visual que atravessa todas as áreas criativas da novela: uma história urbana, ancorada na São Paulo contemporânea, mas atravessada por um toque de anos 90 – visível na construção dos personagens, nos códigos de figurino, nas escolhas de cenografia e na própria linguagem da direção. Sob o comando de Amora Mautner, a novela assume uma estética menos naturalista e mais desenhada, em que os ambientes, as roupas e os corpos em cena ajudam a contar a trajetória emocional e social dos personagens.

A narrativa explora contrastes de classe, circulação pela cidade, deslocamentos cotidianos e espaços de trabalho e de afeto, compondo um retrato urbano reconhecível pelo público, mas filtrado por referências afetivas e visuais que remetem a outras décadas. 

Cenografia e produção de arte: São Paulo nos detalhes

A cenografia, assinada por Cris Bisaglia, é o ponto de partida para organizar o mundo onde a história acontece. Coube a ela desenhar uma São Paulo reconhecível e dramatizada, capaz de acolher os personagens, seus deslocamentos e ações cotidianas, e transformar a cidade em um organismo vivo, feito de contrastes sociais, arquitetônicos e afetivos.

A partir disso, Cris e sua equipe planejaram boa parte dos ambientes. “O pedido da Amora era muito claro: universos bem marcados, com personalidade visual forte, que ajudassem a contar a história”, conta a cenógrafa.

Segundo Cris, a novela exigiu uma leitura detalhada de São Paulo, que desse conta de famílias tradicionais e riquíssimas, núcleos de classe média, ambientes de trabalho, espaços públicos e casas marcadas por afeto e memória.

Alguns cenários se destacam nesse contexto, como a casa da personagem Rosa (Tatiana Tiburcio), por exemplo, que acolhe a família da protagonista em um dos momentos da história. ''A Amora gosta de ação verdadeira, de ator se movimentando, fazendo coisas enquanto fala. Então os cenários precisavam permitir essa circulação orgânica. Foi a partir dessa lógica que surgiram plantas mais abertas e integradas, como na casa de Rosa, pensada para acolher gestos cotidianos e ações simultâneas – lavar um copo, atender o telefone, varrer um canto – enquanto a cena acontece'', detalha Cris.

Outro destaque é o apartamento de Arthur Brandão, definido por um luxo clássico e silencioso, que traduz tradição, poder e dinheiro antigo. A casa do empresário aposta em um clássico contemporâneo rigoroso, com arquitetura grandiosa, materiais nobres, como mármores, dourados, veludos, papéis que remetem a tapeçarias, e jardins internos que evocam sofisticação paulistana e linhagem. Nada é ostentação fácil: tudo comunica refinamento, permanência e repertório cultural. Essa mesma lógica de excesso controlado ganha outra forma na joalheria Brandão, pensada como um espaço exuberante e vivo. Inspirada em joalherias internacionais de perfil mais opulento, o cenário aposta em dourados, vitrines iluminadas, metais reluzentes e em marcantes cortinas de correntes douradas, criando um ambiente sensorial que transforma riqueza em espetáculo visual.

Já a casa de Pilar (Isabel Teixeira) opera na contradição entre aparência e realidade. A decoração mistura estampas, brilho, cores, mármore e dourado, sempre tentando performar luxo, apesar do orçamento instável. O espaço é compartilhado e improvisado, refletindo a convivência apertada com os filhos adultos, e revela, nos detalhes, os limites financeiros por trás da exuberância estética.

A produção de arte da novela, assinada por Carolina Pierazzo, atua em conjunto com a cenografia em todos os detalhes. ''Cada espaço foi desenvolvido a partir de uma lógica estética rigorosa, onde nada é gratuito: os cenários ajudam a definir personagens, relações de poder e estados emocionais, sempre dentro de uma linguagem visual controlada, urbana e contemporânea. A casa de Pilar (Isabel Teixeira) é um dos exemplos mais evidentes desse trabalho conceitual. Trata-se de um ambiente marcado por uma decadência silenciosa, que não se assume de imediato, mas vai sendo revelada aos poucos'', destaca Carolina. O cenário da personagem é denso, cheio de objetos acumulados, com sinais de economia e improviso no cotidiano, como ventilador no lugar do ar-condicionado, comida escassa, desorganização constante. Reflete uma vida que foi perdendo controle ao longo do tempo. Não é um espaço de miséria, mas de desgaste emocional e estrutural, agravado pela convivência dos três filhos adultos, Ingrid (Agatha Moreira), Rafael (João Vitor Silva) e Brigitte (Tata Werneck), dentro da mesma casa, o que intensifica a sensação de sufocamento e caos.

Em contraste direto, a joalheria de Arthur Brandão (Antonio Fagundes) é concebida como um território de poder, desejo e ostentação legitimada. ''Desde o início, a proposta foi fugir de uma estética meramente cenográfica e buscar verdade material, o que motivou a utilização de joias reais em momentos-chave, aliadas a peças cenográficas cuidadosamente compostas. Buscamos também a parceria com um designer, que imprime assinatura, sofisticação e credibilidade ao espaço, um símbolo do império construído pelo personagem. Mais do que um cenário elegante, a joalheria funciona como palco de disputa, tensão e afirmação de status, traduzindo visualmente a força e a ambiguidade desse núcleo'', conta Carolina.

O apartamento de Pedro (Chay Suede), por sua vez, constrói um retrato íntimo de um jovem advogado idealista profundamente conectado a São Paulo contemporânea. É um espaço híbrido, que mistura casa e trabalho, mas, principalmente, referências culturais. A desordem aparente não é descuido: tudo é pensado para expressar intensidade, engajamento e um certo desinteresse por convenções estéticas tradicionais. ''Discos de bandas brasileiras alternativas, o pôster de Sade e objetos como a caneca do MASP ajudam a desenhar um personagem sensível, fora do mainstream, com uma relação afetiva e simbólica com a cidade. O cenário respira modernidade urbana, mistura de linguagens e uma sofisticação sem ostentação'', detalha a produtora.

Um outro cenário importante para contar a história que 'Quem ama cuida' traz é o abrigo. Ele dá continuidade ao impacto causado pela enchente, deslocando o foco do choque imediato para a permanência pós-tragédia. Trata-se de um espaço amplo, vivo e cheio de informação, organizado para ser legível em cena e emocionalmente verdadeiro. Colchões, roupas, doações e áreas de atendimento são distribuídos de forma a criar camadas de profundidade e circulação para a câmera. Detalhes, como malas encostadas, cobertores dobrados, tentativas de organização, introduzem um olhar humano e sensível, enquanto a paleta cromática segue controlada, preservando a identidade visual da novela mesmo em um ambiente de crise.

'Quem Ama Cuida’ é criada e escrita por Walcyr Carrasco e Claudia Souto, com colaboração de Wendell Bendelack, Martha Mendonça, Julia Laks e Bruno Segadilha. A novela tem direção artística de Amora Mautner, direção geral de Caetano Caruso e direção de Alexandre Macedo, Nathalia Ribas, Augusto Lana, Fábio Rodrigo e Rodrigo Olliveira. A produção é de Mauricio Quaresma e Isabel Ribeiro, a produção executiva, de Lucas Zardo e a direção de dramaturgia, de José Luiz Villamarim. 

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