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| O Diabo Provavelmente (1977), de Robert Bresson |
Cineastas de diferentes gerações e nacionalidades se encontram na FILMICCA. Nesta sexta-feira (29), produções de três países distintos estreiam na plataforma, ampliando o catálogo com filmes que atravessam a história do cinema, começando nos anos 60 com Jonas Mekas, o padrinho do cinema de vanguarda americano, passando pelos anos 70 com o aclamado francês Robert Bresson, até o cinema contemporâneo sul-coreano de Lee Ji-eun.
Entre as estreias está Walden: Diários, Notas, Esboços (1968), o diário filmado em 16mm com o qual Jonas Mekas imortalizou a efervescência da vanguarda nova-iorquina dos anos 1960. Também chega ao catálogo O Diabo Provavelmente (1977), meditação existencial de Robert Bresson sobre uma juventude parisiense incapaz de encontrar sentido no mundo moderno. E, por fim, A Colina dos Segredos (2022), retrato sensível da estreante Lee Ji-eun sobre uma menina de doze anos às voltas com vergonha, escrita e pertencimento na Coreia dos anos 1990.
WALDEN: DIÁRIOS, NOTAS, ESBOÇO (1968)
Jonas Mekas
Estados Unidos
Walden: Diários, Notas, Esboços é o primeiro filme-diário de Jonas Mekas. O longa é uma crônica em seis rolos de sua vida na Nova York dos anos 1960, entrelaçando momentos com família, amigos, amantes e ídolos artísticos. Combinando encontros cotidianos com retratos da cena artística de vanguarda, forma uma meditação épica e pessoal sobre comunidade, criatividade e a passagem do tempo.
Nomeado em homenagem ao livro de Henry David Thoreau, o filme alterna cenas cotidianas como casamentos e manhãs de domingo com retratos da efervescente cena de vanguarda nova-iorquina. Entre os momentos registrados está o famoso 'bed-in' de John Lennon e Yoko Ono em 1969, documentado por Mekas com uma intimidade que contraria a cobertura sensacionalista da mídia da época.
Considerado um dos padrinhos do cinema de vanguarda americano, Mekas quebrou em Walden: Diários, Notas, Esboços as regras da técnica e da narrativa tradicionais, criando momentos de cinema puro que lembram improvisos de jazz.
O DIABO PROVAVELMENTE (1977)
Robert Bresson
França
Penúltimo longa-metragem do aclamado cineasta francês Robert Bresson, O Diabo Provavelmente foi rodado em Paris durante a onda de calor europeia de 1976 e estreou em 15 de junho de 1977. No Festival de Berlim do mesmo ano, o filme conquistou o Urso de Prata do Júri Especial.
A narrativa começa com a descoberta do corpo de um jovem no cemitério Père Lachaise: o que parece suicídio é depois classificado como homicídio. Seis meses antes, Charles (Antoine Monnier) transitava sem rumo pela Paris dos anos 1970, rejeitando a política, a religião e a psicanálise, incapaz de encontrar sentido em qualquer uma delas. Bresson integra à ficção imagens documentais reais de poluição industrial e devastação ecológica, confrontando o espectador com a mesma realidade que paralisa seu protagonista.
Com fotografia de Pasqualino De Santis, montagem de Germaine Lamy e música de Philippe Sarde, completam o elenco, Tina Irissari, Henri de Maublanc, Laetitia Carcano, Nicolas Deguy e Régis Hanrion.
A COLINA DOS SEGREDOS (2022)
Lee Ji-eun
Coréia do Sul
Primeiro longa-metragem da diretora Lee Ji-eun, A Colina dos Segredos teve estreia mundial na seção Generation Kplus da Berlinale 2022 e acumulou prêmios em festivais sul-coreanos como Jeonju, Muju e PyeongChang.
Ambientado em 1996, o filme acompanha Myung-eun, vivida por Moon Seung-ah ('Vidas Passadas'). Presidente de turma, a jovem instala uma caixa de correio para desejos e segredos. A menina de doze anos sabe muito bem disso; ela mesma tem muitos dos dois. Seu desejo é ser reconhecida, por exemplo – pela professora, colegas e seus pais. Ou talvez ela simplesmente deseje ter pais diferentes: uma mãe mais elegante e menos mesquinha, e um pai que trabalhe em um escritório e não acorde tarde todos os dias. Enquanto mantém sua família em segredo, Myung-eun descobre uma habilidade para se conectar com o mundo através de concursos de redação, dedicando horas e horas de pesquisa a cada um de seus ensaios. Quando uma nova aluna entra em sua turma, ela começa a perceber que talvez haja outro caminho.
O filme é apresentado com sensibilidade pela diretora estreante e é impulsionado pela performance luminosa de Moon Seung-ah. É ao mesmo tempo uma crítica ao classicismo profundamente enraizado na sociedade sul-coreana e uma contemplação empática do que significa "família".



