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| Foto: Globo/Lucas Seixas |
A Globo estreia hoje (1º de julho), logo após 'Quem Ama Cuida', a série documental 'Anos 90: A Explosão do Pagode'. Em três episódios, exibidos sempre às quartas, a produção dos Estúdios Globo revisita a trajetória do ritmo que nasceu na periferia de São Paulo, ganhou projeção nacional e ajudou a redefinir a música popular brasileira nos anos 1990. Dirigida por Emilio Domingos e Rafael Boucinha, com roteiro de Raul Perez, a obra percorre a origem, a ascensão, os conflitos e o legado de um movimento que ultrapassou as paradas de sucesso e se tornou parte da memória afetiva do país.
A série reúne grandes nomes do pagode, como Salgadinho, Chrigor, Netinho, Péricles, Belo e Márcio Art, além de grupos emblemáticos como Katinguelê, Exaltasamba, Soweto, Negritude Júnior, Art Popular, Só Pra Contrariar, Raça Negra e Molejo. A narrativa também destaca o papel de produtores e empresários, entre eles Luizão da Chic Show, William da Zimbabwe, Jorge Hamilton e Pelé Problema, no impulsionamento do movimento.
Com imagens de arquivo raras e entrevistas inéditas, a produção revela bastidores, dificuldades, triunfos e o impacto do pagode na vida e na carreira de seus protagonistas. A trilha sonora reúne sucessos como ''No Compasso do Criador'', ''Recado à Minha Amada'' e ''Inaraí'', do Katinguelê; ''Coral de Anjos'', do Sensação; ''Carona do Amor'', ''Gamei'' e ''Me Apaixonei pela Pessoa Errada'', do Exaltasamba; ''Desejo de Amar'', de Eliana de Lima; ''Absoluta'' e ''Geladinho'', do Negritude; e ''Derê'', do Soweto, em uma viagem nostálgica pela era de ouro do pagode.
O documentário também traz registros de shows históricos e participações especiais que prometem surpreender os fãs. Responsável pelo roteiro, Raul Perez conta que a construção da narrativa acompanhou o próprio processo de filmagem. ''O processo foi bem dinâmico, mas tem suas especificidades. O documentário é dois produtos em um: tanto um longa-metragem quanto uma série. Por isso, a narrativa precisava funcionar nos dois formatos. Começamos com um briefing dos diretores e criadores, que definiu o universo do projeto e a perspectiva da nostalgia. A partir daí, construí uma proposta inicial, mas foi um processo muito vivo, e o roteiro foi sendo moldado em paralelo às filmagens e entrevistas. Tivemos um alinhamento muito grande, e tudo só aconteceu por conta da ótima condução dos diretores, da equipe de produção muito atenta e sagaz e, do ponto de vista do roteiro, de um alinhamento com os pesquisadores. Fomos montando o quebra-cabeça juntos. Foi um trabalho colaborativo intenso com a equipe de produção e os pesquisadores, mas muito prazeroso'', afirma.
Além da força musical, a produção investe em recursos visuais que transportam o público de volta à época de ouro do pagode. A paleta de cores vibrantes — com lilás, violeta, laranja e amarelo —, os figurinos e as locações cuidadosamente selecionados recriam a atmosfera que marcou aquela geração.
A moda dos anos 1990 aparece como uma explosão de cores vibrantes e neon, estampas geométricas e abstratas, além de peças icônicas como calças jeans de cintura alta e baggy, camisetas largas, regatas, vestidos curtos e justos, macacões, bonés, bandanas e colares de corrente. Os cabelos variavam dos cortes raspados e geométricos, entre os homens, aos longos e volumosos, entre as mulheres, com maquiagem marcada por batons escuros, sombras coloridas e blush.
''O pagode dos anos 90 não foi só música, foi uma revolução cultural e converge com o auge da televisão brasileira. Era um movimento musical da periferia que conquistou o país, colocando o homem negro na frente das câmeras em horário nobre, e isso mudou tudo'', relembra Rafael Boucinha.
Nesse sentido, mais do que celebrar o sucesso do pagode dos anos 1990, o documentário propõe uma reflexão sobre representatividade negra, indústria fonográfica, machismo e ausência de vozes femininas no gênero. A obra também explora as conexões culturais entre São Paulo e Rio de Janeiro na formação dessa sonoridade.
O diretor Emilio Domingos reforça a importância social do movimento no cenário da época. ''O pagode dos anos 90 é um marco na representatividade negra na música brasileira. Esses artistas, vindos da periferia de São Paulo, dominaram as paradas de sucesso e a televisão em uma época em que a indústria fonográfica era extremamente influente. O documentário registra essa história e reforça a importância da cultura negra na formação da identidade brasileira. É um movimento político colocar essas vozes e rostos na tela, disputando espaço com a hegemonia de imagens estrangeiras. Eles colocaram a periferia de São Paulo no mapa da música brasileira. O Brasil inteiro se identificava com aquilo'', complementa.
Ao estabelecer um diálogo com o presente, a produção conta ainda com participações de Ludmilla, Thiaguinho e Gloria Groove, evidenciando a influência contínua do pagode na música brasileira contemporânea.
'Anos 90: A Explosão do Pagode' é um documentário produzido pelos Estúdios Globo, criado por Emilio Domingos e Felipe Giuntini, com direção de Emilio Domingos e Rafael Boucinha. A produção é de Anelise Franco e Kayque Carlos, e a produção executiva, de Fernanda Neves.
