''Preta – Eu Não Ando Só'': documentário revela momentos inéditos da trajetória de Preta Gil

Foto: Globo/Divulgação

Um retrato sensível e profundamente íntimo de Preta Gil chegará ao público no dia 20 de julho, após 'Quem ama cuida', um ano após a morte da cantora em decorrência de um câncer. Construído a partir de imagens inéditas, muitas registradas pela própria Preta Gil em seu celular, o filme documental 'Preta - Eu não ando só' revela uma trajetória inspiradora que transforma dor em partilha e vulnerabilidade em presença, cercada por amigos e familiares.  

Em janeiro de 2023, ao receber o diagnóstico de câncer de intestino, Preta decide documentar sua própria jornada com o apoio dos amigos. Com a coragem e a alegria, que sempre foi sua marca registrada, ela compartilha com seus milhares de seguidores nas redes sociais a fé e a resiliência que a acompanham ao longo tratamento. Cercada por família e amigos, transforma o enfrentamento da doença em um gesto de conexão. A narrativa entrelaça a cronologia do tratamento com momentos marcantes de sua vida, revelando o olhar íntimo de quem esteve ao seu lado em cada etapa.   

Para Sandra Kogut, uma das diretoras do projeto, o público pode esperar momentos de emoção e alegria. ''O filme coloca a gente muito perto da Preta, na intimidade, e ao mesmo tempo dá a dimensão de quem ela foi. Acompanhamos esses últimos anos com idas e vindas por momentos importantes da carreira dela. Apesar da doença, tudo na Preta era sobre a vida, a pulsão gigante da vida. Então é um filme que abraça isso – a alegria, a gargalhada, a vontade de viver. E ao mesmo tempo ela tinha essa vontade de se mostrar para o mundo de peito aberto.  Então o filme mostra isso também. As dores, as lágrimas'', revela.   

Já para diretora Mônica Almeida, esse filme documental é especial por se tratar de um pedido da Preta. 'Ela me chamou para conversar em 2023, a vontade dela era fazer um filme mais íntimo, filmado pelos amigos, ela queria se filmar, queria que fosse de verdade, original como ela, a gente acompanhou todo esse processo, o filme foi mudando ao longo do tempo, se desenhando conforme o caminho da Preta', afirma.  

O filme reúne depoimentos de pessoas que fizeram parte de sua história, como Carolina Dieckmann, Ivete Sangalo, Regina Casé, Ju de Paula, Marina Morena, Sol de Maria, Francisco Gil, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gominho e Ana Carolina, formando uma rede de apoio presente até os últimos dias de sua vida.   

Gilberto Gil revela que a filha espalhou afetividade por onde passava. ''Ela trazia bons afetos, era amorosa, aproximava pessoas de todo tipo. Isso tudo refletia nela, mas também no mundo, que era recebido por ela de forma muito intensa. O mundo agradecia, havia um diálogo profundo entre ela e o mundo'', reflete.   

Com imagens captadas por celulares e relatos carregados de emoção, o documentário convida o espectador a acompanhar a luta diária, a despedida que se anuncia fora de cena e, sobretudo, o amor que sustenta Preta em todos os instantes, reafirmando que ela nunca esteve só.   

O filme documental integra o projeto 'Quanto Mais Preta Melhor', iniciativa que celebra a trajetória e a força da artista, que faleceu no ano passado em decorrência de um câncer no intestino. O filme documental 'Preta – Eu Não Ando Só' será exibido na TV Globo no dia 20 de julho, logo após a novela ‘Quem Ama Cuida’, no 'Tela Quente', e ficará disponível na plataforma de streaming da Globo. Na mesma data, estreia a série documental 'Meu Nome é Preta', com quatro episódios, no Globoplay. 

'Preta – Eu Não Ando Só' é uma produção dos Estúdios Globo. A criação é de Monica Almeida, Sandra Kogut e Alice Lutz, com roteiro de Sandra Kogut e Renato Terra. A produção é de Elaine Sá e Polly Silva, com produção executiva de Fernanda Neves. O documentário tem direção de Sandra Kogut, direção artística de Monica Almeida e direção do Núcleo de Documentários de Pedro Bial.

Entrevista Sandra Kogut 

O documentário parte de um desejo da própria Preta Gil de registrar sua jornada durante o tratamento. Como foi receber esse pedido e compreender a responsabilidade de transformar esse material tão íntimo em uma obra audiovisual?  
Esse filme começou lá atrás, e no início todos nós achávamos que seria uma história de cura, de superação.  Quando a Monica me convidou para dirigir conversamos bastante sobre como penetrar nesse universo com todo o cuidado e delicadeza.  Afinal se tratava da intimidade da Preta, e era um material muito extenso, sem nenhum filtro. Durante meses mergulhei nesse mundo infinito de imagens e sons do celular da Preta. Foi uma imersão total. Sonhava com ela. Imagina tudo o que não tem no celular de uma pessoa como a Preta? Mas no fundo, ao começar esse filme, me fiz as mesmas perguntas que sempre me faço, em todo filme, frente a cada imagem: porque mostrar isso ou aquilo, e como mostrar? Por que eu tenho direito de ver isso? E o público? Qual é a maneira justa? Acho que todo filme sempre nasce de uma relação de respeito e confiança, de um olhar que encontre a distância certa: nem invasivo nem distante. E assim fomos fazendo. 

Ao longo do filme, vemos não apenas a luta contra a doença, mas também a força dos vínculos afetivos que cercavam Preta Gil. Em que momento ficou claro para você que a rede de apoio seria um dos pilares da narrativa? 
Tudo na Preta era sobre a vida.  Ela criou em torno dela uma rede de apoio maravilhosa, que começou bem antes da doença: era um modo de vida, um jeito de ver o mundo. Desde o começo, isso já era muito claro pra mim. Eu sabia que seria um filme sobre amizade. Os amigos eram também quem estava filmando, registrando. A própria filmagem já expressava essa amizade, esse cuidado deles com ela. Isso trazia emoção a esse arquivo. Filmar nesse caso era um gesto de amor.  Era muito importante deixar claro que essas imagens de celular, as vezes um pouco caóticas, eram feitas por pessoas íntimas, que estavam na vida da Preta há muito tempo. Dava para sentir essa emoção nas imagens. Colocando assim, cada imagem virava um gesto de amizade, de amor. 

Depois de tantos meses imersa nas imagens, nos relatos e na intimidade de Preta Gil, qual foi o maior aprendizado pessoal que você leva desta experiência? 
O exemplo absoluto da alegria de viver, da coragem, da ausência total de autopiedade. Aprendi demais fazendo esse filme. Que lindo exemplo de vida foi a Preta. Um presente para todos nós. 

Entrevista Mônica Almeida 

No início do projeto, havia a expectativa de que Preta Gil participasse do documentário de uma forma mais tradicional. Em que momento vocês entenderam que o filme teria outro caminho narrativo? 

No início, achávamos que haveria uma entrevista com ela, mas o filme foi se transformando ao longo do processo. Imaginávamos que teríamos uma grande entrevista da Preta, mas, no meio do caminho, entendemos que isso não aconteceria. E isso também faz parte da curva narrativa do filme. Ela aparece dizendo que quer fazer o documentário, vai se filmando muito animada, brinca com a própria câmera. Aos poucos, fomos entendendo que teríamos a Preta dessa forma, por meio desses registros, e não em uma entrevista tradicional. 

O documentário é construído a partir de um vasto acervo de registros pessoais. Como vocês chegaram à conclusão de que a amizade e a rede de afeto ao redor de Preta Gil seriam o eixo central da narrativa? 

A gente tinha um material muito grande, uma quantidade enorme de registros. Era realmente um diário da Preta e também dos amigos. Quanto mais assistíamos àquelas imagens tão íntimas, mais tínhamos certeza de que o universo do filme eram aqueles amigos que estavam ao redor dela, a relação que construíram juntos e aqueles últimos anos vividos cercada por eles. Não foi uma escolha nossa; aquilo simplesmente era assim. 

Recebíamos essas imagens e entendíamos que eram algo muito precioso: a vida de uma pessoa em seus momentos mais íntimos, tanto nos períodos mais difíceis quanto nos mais felizes. Acho isso muito especial, porque não é um filme em que paramos para filmar algo especificamente. É um filme pelo qual fomos inundados. 

Vocês tiveram acesso a imagens extremamente íntimas da vida de Preta e de pessoas próximas a ela. Como foi o processo de mergulhar nesse material e encontrar a forma certa de contar essa história respeitando o desejo da própria Preta? 

Foi uma imersão no mundo da Preta. Não havia um filtro prévio da Preta ou dos amigos dizendo ''isso é para o filme'' ou ''isso não é para o filme''. Conversamos muitas vezes sobre isso e, primeiro, precisávamos encontrar um caminho para organizar todo aquele material na nossa cabeça. Era algo que ocupava nossas vidas 24 horas por dia. 

Quando a Preta falava sobre o documentário, dizia que não queria um filme cheio de pompa, luzes e muitas câmeras. No começo, eu não entendi completamente o que ela queria dizer, mas, depois de assistir a todo aquele material, entendi. E ainda bem que entendemos o que a Preta desejava. 

Um dia liguei para a Sandra e comentei: ''Esse é um filme sobre amizade''. A Preta era isso, era amizade. Há muitos momentos em que isso aparece com força no filme. É uma obra que tem uma cama de afeto gigantesca. E a Preta sabia disso; ela queria que esse sentimento estivesse impresso na narrativa. 

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