Globoplay estreia série documental sobre médico investigado por dezenas de mortes e crimes na saúde

Foto: Globo/Divulgação

Como um médico renomado e popular nas redes sociais se tornou protagonista de um dos maiores escândalos criminais da medicina brasileira? A série documental ''Quebra de Juramento - um médico no banco dos réus'', que estreia no Globoplay nesta quinta-feira, dia 8, mergulha nos bastidores da investigação contra o cirurgião João Couto Neto, que responde a mais de cem inquéritos policiais, sob suspeita de ter provocado a morte de ao menos 40 pacientes e causado lesões corporais em outros 108.
 
Com três episódios, a produção do Jornalismo da Globo revela detalhes inéditos sobre o caso. Especialista em cirurgias por videolaparoscopia - principalmente de hérnia, vesícula e endometriose -, Couto Neto era um dos médicos mais requisitados da região do Vale dos Sinos, no Rio Grande do Sul, e afirmava ter realizado mais de 25 mil procedimentos em 19 anos de carreira. 
 
Segundo a Polícia Civil do Rio Grande do Sul, que começou a investigar o caso em 2022, ele teria abandonado a técnica e a ética para enriquecer, instaurando uma rotina descrita como “linha de produção” em hospitais particulares. A investigação aponta práticas sistemáticas de risco, negligência no pós-operatório e condutas antiéticas.
 
A série traz depoimentos exclusivos de familiares de supostas vítimas, pacientes, delegados, representante do Ministério Público, advogados, médicos e pesquisadores na área médica. Também apresenta áudios e mensagens enviadas por João Couto Neto a pacientes, além de depoimentos prestados pelo cirurgião à polícia.
 
''A série procura apresentar um retrato objetivo das investigações do caso. Traz as conclusões da polícia e da Promotoria até agora, mas sem entrar em juízo de valor sobre a responsabilidade do cirurgião, até porque se trata de um caso em aberto na Justiça. Apesar do número elevado de investigações, o cirurgião tem muitos ex-pacientes que o defendem, e a série procura contemplar todas essas posições, antecipando o debate que deverá ocorrer nos tribunais. Além de mostrar as dificuldades de investigar um médico no Brasil, ainda mais num caso complexo como esse'', diz a produtora executiva da série, Clarissa Cavalcanti.
 
Para além do caso criminal, a produção amplia o debate sobre ética médica, a mercantilização da saúde e os desafios para responsabilizar empresas e profissionais do setor em casos de falhas na prestação de serviços de saúde.
 
Segundo o Conselho Nacional de Justiça, ações por danos morais e materiais na saúde mais que dobraram em cinco anos, passando de 29,3 mil, em 2020, para 76,9 mil, em 2024, uma alta de 161%. Dados reunidos pela ONG Fiquem Sabendo, a pedido da produção da série, apontam que 97 médicos foram cassados pelo Conselho Federal de Medicina entre 2020 e 2024 – o número representa 35% dos profissionais julgados pelo CFM no período, mas apenas 0,01% dos médicos ativos no Brasil em 2024. Outro número que chama a atenção é o aumento indiscriminado de escolas médicas, que saltou de 181, em 2010, para 448, em junho de 2025, um crescimento de 147%, segundo o Ministério da Educação.
 
''A série toca num tema importante e que afeta todos os brasileiros – a precarização da relação médico-paciente. Esse cenário, descrito por especialistas e por quem vivencia o cotidiano da medicina, fica claro diante da judicialização atual da saúde no Brasil. Independentemente do desfecho judicial do caso de João Couto Neto, a série mostra que esses processos e investigações sobre o cirurgião podem ser vistos como sintomas de problemas estruturais mais amplos na prática médica no país, e que se refletem de maneira direta na segurança do paciente'', afirma Thiago Guimarães, diretor e roteirista da série.
 
João Couto Neto chegou a ser preso duas vezes ao longo das investigações, mas hoje responde em liberdade. Proibido de exercer a medicina, ele já é réu em dois processos sob acusação de homicídio por omissão e com dolo eventual contra seis ex-pacientes. A Justiça do Rio Grande do Sul deve decidir em breve se os casos irão a júri popular.
 
A série documental ''Quebra de Juramento - um médico no banco dos réus'' tem direção de Thiago Guimarães, produção executiva de Clarissa Cavalcanti, roteiro de Thiago Guimarães e Renata Matarazzo, produção de Stephanie Lotufo e fotografia de Adriano Ferreira. Os três episódios estreiam no Globoplay no dia 8 de janeiro.

Anderson Ramos

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