Com distribuição da Imagem Filmes, Backrooms: Um Não-Lugar estreou nos cinemas na última quinta-feira (28) em primeiro lugar nas bilheterias, levando mais de 400 mil brasileiros às salas entre os dias 28 e 31 de maio. No mundo todo, o filme arrecadou mais de US$ 118 milhões em seu primeiro fim de semana, tornando-se a maior abertura da história da A24 e a maior estreia de um terror original na história do cinema. Aos 20 anos, o diretor Kane Parsons se tornou o cineasta mais jovem a estrear um filme na liderança das bilheterias mundiais.
O queridinho da geração Z
Protagonizado por Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Mark Duplass, Finn Bennett e Lukita Maxwell, Backrooms: Um Não-Lugar é, antes de tudo, um fenômeno da geração Z. Impressionantes 86% dos espectadores da semana de estreia têm menos de 35 anos, um número que não é coincidência: a história das Backrooms foi construída na internet, por jovens, para jovens, muito antes de chegar às telas.
Tudo começou em 2019, com um único post anônimo no 4chan: a foto de um escritório vazio acompanhada da descrição de um lugar que "não deveria existir". A imagem viralizou, a narrativa se espalhou por Reddit e outros fóruns, e o que era um post se tornou um universo colaborativo, alimentado por milhares de usuários que foram adicionando detalhes, imagens e versões alternativas ao longo dos anos. Esse tipo de criação coletiva e sem dono tem nome: creepypasta. E as Backrooms se tornaram uma das maiores da história da internet.
Foi dentro dessa comunidade que Kane Parsons cresceu. Em janeiro de 2022, aos 16 anos, ele transformou essa lenda em uma série no YouTube usando um software gratuito de animação 3D. O resultado foi imediato: mais de 300 milhões de visualizações globais e uma contratação pela A24 ainda aos 17 anos. "Imediatamente reconheci e conectei aquilo a uma história maior que eu queria explorar. Juntei os dois e virou a série que as pessoas conhecem", conta o diretor.
"Para quem já conhece a história das Backrooms, é empolgante ver essa versão maior e mais elaborada do universo. Para quem chega agora, a visão do Kane é única, e esse mundo vai prender do começo ao fim", afirma Chiwetel Ejiofor.
O que acontece no filme? (sem spoilers)
Ambientado em 1990, Backrooms: Um Não-Lugar acompanha Clark (Chiwetel Ejiofor), um arquiteto frustrado que trocou os projetos pelo balcão de uma loja de móveis temática nos subúrbios do Vale do Silício. Casamento fracassado, negócio em crise e sonhos enterrados: Clark é um homem em colapso silencioso quando luzes inexplicáveis o levam ao porão da loja e ele descobre uma passagem para outro lado. Do outro lado, não há nada que faça sentido: um labirinto aparentemente infinito de corredores amarelados, cômodos vazios e arquitetura impossível, sem saída, sem janelas, sem lógica. Um lugar que não deveria existir, mas existe. Esse é o espaço chamado de Backrooms.
Perturbado e ao mesmo tempo fascinado pelo que encontra, Clark começa a voltar ao lugar repetidamente, tentando mapear sua arquitetura. Para alguém que perdeu tudo, as Backrooms oferecem uma estranha sensação de clareza e propósito. Mas quando ele desaparece nesse ambiente, sua terapeuta, a Dra. Mary Kline (Renate Reinsve), decide entrar para encontrá-lo. Mary tem seus próprios fantasmas: criada por uma mãe reclusa que tapava as janelas com jornal e não a deixava sair, ela passou a vida tentando ajudar os outros a escapar dos padrões que os aprisionam, sem conseguir fazer o mesmo por si mesma. Nas Backrooms, ela se vê confrontando exatamente isso.
As Backrooms não são apenas um lugar físico: elas agem sobre quem está dentro, distorcendo a percepção da realidade e confrontando cada pessoa com seus próprios medos e traumas. E não estão vazias. O espaço abriga entidades conhecidas como "Still Lifes", criaturas que habitam aqueles corredores e representam algo que o próprio Kane Parsons define de forma perturbadora: "E se não fossem apenas prédios e objetos que pudessem ser replicados, mas também seres humanos? E se fôssemos apenas aglomerados de células passíveis de serem copiados por esse lugar, como mutações?" O que começa como uma busca vai se transformando em algo muito mais perturbador, tanto para Mary quanto para o espectador.
O filme também apresenta a Async Research Institute, uma organização misteriosa que estuda as Backrooms desde 1989 e que tem planos para esse espaço que vão muito além da simples exploração. O que a Async quer, como as Backrooms funcionam e o que realmente acontece com quem entra lá são perguntas que o filme levanta com cuidado, sem entregar respostas fáceis. Para o diretor, esse desconforto é intencional: "Padrões e repetições na sociedade vão se tornando uma espécie de privação sensorial, e em algum momento o cérebro tenta encontrar sentido a partir de todo aquele ruído incoerente. Imagine o quão aterrorizante seria se essa fosse sua existência para sempre."
O horror que nasceu nos espaços liminares
Fugindo dos clichês do terror convencional, Backrooms: Um Não-Lugar explora um conceito que assombra a internet há anos: o horror liminar. Espaços liminares são ambientes de transição: corredores, escritórios vazios, shoppings abandonados, lugares feitos para ser passagem, mas que, quando esvaziados de pessoas e propósito, carregam uma inquietação difícil de nomear. É a sensação de que algo ali não está certo, sem que você consiga explicar exatamente o quê.
"As Backrooms parecem comuns, mas é justamente pela natureza extrema dessa banalidade que elas se tornam tão perturbadoras", explica Ejiofor. "Você sente que deveria estar minimamente seguro, afinal está em um escritório vazio, mas como há algo errado naquele ambiente, você se sente ainda mais vulnerável. É essa sensação que está na origem do horror das Backrooms."
Para Kane Parsons, esse desconforto tem raízes profundas: "A sensação liminar, seja na transição entre lugares físicos ou estados emocionais, vira um horror que remete aos detalhes sutis da infância. É uma exploração do passado que ficou para trás e do desejo de retornar a um passado que não existe mais." Renate Reinsve completa: "Há tantas coisas dentro de nós que não conseguimos acessar, e existem aspectos específicos aos quais só temos acesso pelo subconsciente. Nosso conhecimento sobre o vasto sistema neurológico que carregamos é muito limitado."
Um diretor de 20 anos que convenceu Hollywood
Kane Parsons nos bastidores de Backrooms: Um Não-Lugar
A confiança que a A24 depositou em Parsons não foi por acaso. James Wan, produtor do filme e criador de franquias como Jogos Mortais, Invocação do Mal e Sobrenatural, reconheceu no jovem diretor um espírito próximo ao seu, dada sua própria origem como cineasta independente. "O aspecto de horror desse projeto vem de um lugar muito psicológico, e o Kane mergulha de cabeça nesse fascínio crescente pelos espaços liminares", afirma Wan. "Com seus curtas de Backrooms, ele provou que era extremamente capaz. Sabe exatamente o que quer e entende esse universo tão profundamente que, como produtores, elenco e equipe, confiamos na visão dele. Ter alguém assim como líder faz uma diferença enorme."
Para Parsons, o objetivo sempre foi claro: "A cada etapa da realização deste filme, eu senti que estávamos avançando a premissa das Backrooms sem perder o respeito pelo público que está ali desde o começo. Nosso objetivo era entregar para quem já conhece Backrooms sem afastar quem está chegando agora."
Backrooms: Um Não-Lugar está em cartaz nos cinemas.

