Novembro chega à FILMICCA com dez estreias que atravessam quase sete décadas de cinema e cinco continentes. Ao longo das quatro sextas-feiras do mês, a plataforma recebe produções que vão do reencontro de dois jovens apaixonados em Brasília, no média-metragem O Lindo Quarto Está Vazio (2025), do brasileiro Fernando Grisi, ao noir parisiense de Ascensor para o Cadafalso (1958), primeiro longa de ficção de Louis Malle, embalado pela trilha improvisada por Miles Davis.
Entre os títulos contemporâneos, estreiam também Noite Polar (2023), primeiro longa da japonesa Nagisa Isogai, que mistura drama e horror em parceria com o roteirista Hiroshi Takahashi, um dos nomes centrais do J-horror; Wakhri (2023), de Iram Parveen Bilal, inspirado na trajetória da influenciadora paquistanesa Qandeel Baloch; e o curta brasileiro Onde o Céu Encontra o Mar (2025), de Julia Paes. Para os fãs de ficção científica, chegam ainda Scanners II: A Nova Ordem e Scanners III: O Duelo Final, ambos de Christian Duguay, que expandem o universo criado por David Cronenberg.
Na segunda metade do mês, os clássicos ganham destaque. No dia 20, Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, a FILMICCA apresenta dois marcos do cinema africano: Touki Bouki - A Viagem da Hiena (1973), de Djibril Diop Mambéty, vencedor do Prêmio da Crítica (FIPRESCI) em Cannes, e a versão restaurada em 4K de Tilaï (1990), de Idrissa Ouédraogo, Grande Prêmio do Júri no mesmo festival. O mês termina no dia 27 com Sonhando Acordado (2006), de Michel Gondry, estrelado por Gael García Bernal e Charlotte Gainsbourg, e Ascensor para o Cadafalso.
06/11
'O Lindo Quarto Está Vazio' (2025), de Fernando Grissi
O Lindo Quarto Está Vazio
| Fernando Grisi
| Brasil, 2025
| Elenco: Artur Santana, Alê Dantas, Fellipe Mouta e Gabriel Moura.
Victor e João se apaixonaram na adolescência, embora naquela época ainda não soubessem nomear o que sentiam. Seis anos depois, um reencontro inesperado os aproxima novamente, e os dois passam uma noite juntos revisitando lembranças, conversando sobre o que mudou e tentando entender o lugar que ainda ocupam na vida um do outro.
Filmado em preto e branco, O Lindo Quarto Está Vazio é um drama romântico que encontra na conversa e na intimidade dos espaços uma maneira de abordar memória, desejo e amadurecimento. Com fotografia de Alice Aquino, o filme explora os planos e as linhas da arquitetura de Brasília, que ajudam a compor a atmosfera da história.
Noite Polar (Polar Night)
| Nagisa Isogai
| Japão, 2023
| Elenco: Tomomi Kono, Sakura Minehara, Tomona Hirota, Hibiki Kitazawa, Masahiro Umeda e Masatoshi Kihara.
Makoto é estudante de uma universidade de artes e, aos 12 anos, ficou fascinada por Ira, sua professora de pintura. Seis anos depois, Ira reaparece em uma exposição, aparentemente sem ter envelhecido. O reencontro desperta a curiosidade de Makoto, que começa a descobrir os segredos da mulher e percebe que, apesar de sua aparência humana, ela parece esconder uma sede de sangue.
Primeiro longa-metragem de Nagisa Isogai, o filme mistura drama, mistério e horror ao aproximar as lembranças da infância de uma presença sobrenatural. A obra também marca a parceria da diretora com o roteirista Hiroshi Takahashi, um dos nomes do J-horror, movimento que levou o horror japonês a ganhar projeção internacional a partir dos anos 1990.
Onde o Céu Encontra o Mar
| Julia Paes
| Brasil, 2025
| Elenco: Gi Uzêda, Maribá e Maci.
Odessa é uma sereia que se adaptou à vida em terra firme para viver seu amor com Lúcia. Quando Lúcia é levada pelo mar em um acidente, Odessa precisa enfrentar a perda e encontrar seu lugar em um mundo que já lhe parecia estranho. Em meio ao luto, ela inicia uma jornada de reconexão consigo mesma e com aquilo que ainda pode existir depois da separação.
Dirigido por Julia Paes, o curta combina fantasia e drama para abordar o amor e a experiência da perda a partir de uma protagonista que vive entre dois mundos. Com circulação independente, o filme foi selecionado para festivais no Brasil e no exterior, incluindo o Festival Angaelica, na Califórnia, e recebeu apoio de divulgação da A24 Brasil.
13/11
Wakhri (2023), de Iram Parveen Bilal
Wakhri (Wakhri/One of a Kind)
| Iram Parveen Bilal
| Paquistão, Estados Unidos, 2023
| Elenco: Faryal Mehmood, Gulshan Majeed, Shees Sajjad Gul, Saleem Meraj, Sohail Sameer e Bakhtawar Mazhar.
Noor é uma professora viúva que, depois de publicar opiniões sem filtros nas redes sociais, se torna uma sensação da internet quase da noite para o dia. Sob uma nova identidade, ela conquista milhares de seguidores e passa a usar sua visibilidade para questionar as regras impostas às mulheres em uma sociedade conservadora. Mas a fama também traz ameaças e novos conflitos, enquanto Noor tenta criar o filho e conciliar sua vida privada com a figura pública que começa a construir.
Inspirado na trajetória da influenciadora paquistanesa Qandeel Baloch, assassinada pelo próprio irmão em nome da chamada honra familiar, ''Wakhri'' acompanha os riscos de desafiar as convenções patriarcais, tanto no espaço público quanto no ambiente digital. Antes mesmo de sua finalização, o projeto recebeu o Production Grant da CAPE (Coalition of Asian Pacifics in Entertainment), que contribuiu para seu financiamento e realização. Dirigido por Iram Parveen Bilal, o filme passou por importantes festivais internacionais, incluindo o South by Southwest (SXSW), e combina crítica social, humor e a energia de uma protagonista que transforma sua voz em instrumento de resistência.
Scanners II: A Nova Ordem (Scanners II: The New Order)
| Christian Duguay
| Canadá, 1991
| Elenco: David Hewlett, Deborah Raffin, Yvan Ponton, Isabelle Mejias, Raoul Max Trujillo e Tom Butler.
Dez anos depois dos acontecimentos do primeiro filme, uma nova geração de scanners surge com poderes telepáticos tão intensos que chegam a escapar ao próprio controle. Essas habilidades chamam a atenção de John Forrester, um comandante de polícia corrupto que recruta esses indivíduos para colocar seus poderes a serviço de uma campanha de dominação da cidade.
Christian Duguay retoma o universo dos scanners em uma história que combina ficção científica, horror corporal e conspiração política. Embora siga por um caminho mais próximo da aventura e da ação, o longa preserva a ideia de que habilidades extraordinárias podem se tornar instrumentos de controle e violência. O filme dá continuidade à franquia com novos personagens e conflitos.
Scanners III: O Duelo Final (Scanners III: The Takeover)
| Christian Duguay
| Canadá, 1991
| Elenco: Liliana Komorowska, Steve Parrish, Valérie Valois, Colin Fox, Daniel Pilon e Peter Wight.
Uma jovem com poderes telepáticos extraordinários se transforma em uma máquina de matar após ingerir uma droga experimental desenvolvida por seu pai. O efeito da substância desencadeia uma onda de violência e dá início a um confronto entre scanners, enquanto seu irmão tenta impedir que ela leve adiante seus planos.
No terceiro capítulo da franquia inspirada nos personagens criados por David Cronenberg, Christian Duguay desloca o foco para uma mulher cujos poderes mentais se tornam instrumentos de ambição e dominação. Entre experimentos farmacológicos, assassinatos e manipulação televisiva, o filme amplia o universo da série com uma trama de ficção científica e horror que coloca em jogo os limites entre poder, identidade e controle.
20/11
'Touki Bouki - A Viagem da Hiena' (1973), de Djibril Diop Mambéty
Touki Bouki - A Viagem da Hiena (Touki-Bouki)
| Djibril Diop Mambéty
| Senegal, 1973
| Elenco: Magaye Niang, Myriam Niang, Christoph Colomb, Mustapha Touré, Aminata Fall e Ousseynou Diop.
Mory, um vaqueiro que circula em uma motocicleta enfeitada com uma caveira de boi, e Anta, uma estudante universitária, sonham em deixar o Senegal e partir para Paris. Cansados da vida que levam em Dakar, os dois buscam maneiras de conseguir dinheiro para realizar a viagem e acabam se envolvendo em pequenos golpes e furtos.
Premiado com o Prêmio da Crítica (FIPRESCI) no Festival de Cannes de 1973, Touki Bouki - A Viagem da Hiena é um dos filmes mais importantes e aclamados do cinema senegalês. Em diálogo com a Nouvelle Vague francesa, mas sem perder de vista as referências culturais e as contradições do Senegal, Djibril Diop Mambéty acompanha o sonho de partir para a Europa e questiona as promessas da modernidade, a herança colonial e o desejo de escapar de uma realidade que continua presente mesmo longe de casa.
Tilaï (Versão Restaurada 4K)
| Idrissa Ouédraogo
| Burkina Faso, França, Suíça, 1990
| Elenco: Rasmané Ouédraogo, Ina Cissé, Roukietou Barry, Assane Ouédraogo, Sibidou Sidibé e Moumouni Ouédraogo.
Saga retorna à sua aldeia após uma ausência de dois anos. Muita coisa mudou e sua noiva, Nogma, se tornou a segunda esposa de seu pai. Mesmo assim, Saga e Nogma ainda se amam, violam a lei comunitária tradicional e têm um caso. Para a aldeia isso é incesto e Saga deve morrer.
Com versão restaurada, vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 1990, ''Tilaï'' é uma das obras-primas do célebre diretor Idrissa Ouédraogo e a história se passa no Burkina Faso pré-colonial.
27/11
'Sonhando Acordado' (2006), de Michel Gondry
Sonhando Acordado (La Science des rêves/The Science of Sleep)
| Michel Gondry
| França, Itália, 2006
| Elenco: Gael García Bernal, Charlotte Gainsbourg, Miou-Miou, Alain Chabat, Emma de Caunes e Aurélia Petit.
Stéphane retorna à França após a morte do pai e começa a trabalhar em uma empresa onde suas tarefas burocráticas pouco têm a ver com sua imaginação inquieta. Ao conhecer Stéphanie, sua vizinha, ele se aproxima dela enquanto tenta distinguir os acontecimentos reais das histórias que inventa durante o sono. Aos poucos, os sonhos passam a invadir sua vida cotidiana, transformando o relacionamento dos dois em uma experiência tão delicada quanto imprevisível.
Michel Gondry constrói uma comédia romântica fantástica em que sonhos, lembranças e desejos se misturam sem obedecer às regras da realidade. Conhecido por seus videoclipes inventivos e pelo uso de efeitos artesanais, o diretor explora animações, cenários feitos à mão e truques visuais para dar forma ao universo interior do protagonista. O resultado é um filme que transforma a imaginação em matéria cinematográfica e acompanha as dificuldades de se comunicar e de amar quando cada pessoa parece viver em um mundo próprio.
Ascensor para o Cadafalso (Ascenseur pour l'échafaud)
| Louis Malle
| França, 1958
| Elenco: Jeanne Moreau, Maurice Ronet, Georges Poujouly, Yori Bertin, Jean Wall e Lino Ventura.
Um empresário e sua amante planejam assassinar o marido dela. Confiante de que pensou em cada detalhe, ele acredita ter cometido o crime perfeito, mas um imprevisto desencadeia uma sequência de acontecimentos que foge completamente ao seu controle.
Primeiro longa-metragem de ficção de Louis Malle, Ascensor para o Cadafalso é um marco do cinema policial francês e antecipa aspectos da liberdade formal associada à Nouvelle Vague. A atmosfera noturna de Paris, a fotografia de Henri Decaë e a trilha sonora improvisada por Miles Davis, gravada durante a montagem das imagens, dão ao filme um ritmo hipnótico. Jeanne Moreau constrói uma de suas personagens mais emblemáticas como uma mulher presa entre o desejo, a culpa e a espera.
.webp)


