Especial ''Humor Negro'' estreia no Globoplay e Multishow

Divulgação Magali Moraes e Ícaro Cerqueira

Grandes comediantes negros dão forma ao projeto que utiliza do humor para abordar situações absurdas e inusitadas que os artistas vivem atrás dos palcos e no seu dia-a-dia. A risada está garantida com Tia Má, Sulivã Bispo, João Pimenta, Jhordan Mateus, Niny Magalhães e participação especial de Evaldo Macarrão em ''Humor Negro'', um especial de humor gravado no Teatro Vila Velha, em Salvador. O programa chega às telas do Multishow no dia 19 de dezembro, às 20h, e terá exibição simultânea no Globoplay.

O espetáculo possui um formato inovador, que mescla apresentações de stand-up para plateia e esquetes de situações vividas por esses artistas ao criarem e apresentarem um especial de humor. Segundo Val Benvindo, idealizadora do festival que deu origem ao projeto, o programa busca ressignificar a expressão “humor negro”, sendo entendido pelo fato de ser um humor feito por pessoas pretas e não de forma pejorativa, como ainda é conhecido.

“O Humor Negro chega no Multishow e no Globoplay com a força de um elenco protagonizado por comediantes negros que tiram boas risadas do público ao contar histórias do cotidiano. O stand-up traz, através de muito humor, reflexões sociais importantes entre críticas ácidas aos preconceitos enraizados na sociedade. Estamos muito felizes com a estreia de um projeto tão especial e necessário como esse!" -- afirma Maryza Macedo, Coordenadora de conteúdo canais Globo e Globoplay

O projeto, criado e produzido pela Conspiração, teve a direção de Rodrigo França, roteiro de Renata Sofia e Jhonatan Marques.

Humor Negro
Estreia: 19 de dezembro às 20h
Exibição: Multishow e Globoplay

PING-PONG COM O ELENCO

1. O que você achou da ideia de ressignificar a expressão “humor negro” e como lidava com ela antes?
 
Jhordan Matheus: Durante muito tempo, principalmente aqui no Brasil, sempre tivemos a ideia de que o humor negro era aquele humor ácido, que ofendia as pessoas, que buscava alguém como ponto de graça naquele show. Essa ideia nunca foi válida pra mim, porque coloca o negro de uma forma pejorativa. A ideia de ressignificar esse nome é justamente para trazer ao humor negro o que ele merece. Colocar o negro no meio de alguma coisa é uma grandeza, e quando se coloca em uma piada, que se coloque com excelência. Que seja um humor de negro, de gente preta pra gente preta.

João Pimenta: Pessoas pretas estão o tempo todo ressignificando expressões contra elas, e o termo humor negro é mais uma dessas. Para muita gente esse tipo de coisa que a gente faz é tratado como “mimimi”, mas é muito fácil falar isso quando a dor não é você quem sofre. Faço comédia há 16 anos e certas coisas precisam mudar, essa expressão é uma delas.

Niny Magalhães: Eu sou afrobege e me descobri negra há pouquíssimos anos por ter sido declarada parda. Muitas coisas eu não entendia, mas a expressão "humor negro" sempre me incomodou e ainda depois de me encontrar e declarar negra. Mas eu nem penso em como era antes, pra mim hoje o Humor Negro é o nosso humor.

Sulivã Bispo: O nome Humor Negro me remete ao bloco afro, ao Ilê Aiyê, que é o primeiro bloco afro do Brasil. “Ilê” em iorubá significa “casa” e “Aiyê” significa “mundo”, ou seja a casa dos negros, o mundo dos negros, o local onde os negros escolheram para fazer festa, se juntar, se aquilombar. A gente enaltece nossa cor, nossa raça, nossa história, nossa beleza, nossa tradição. Quando a gente traz esse Humor Negro é para dar um tapa na cara do racismo, que fez historicamente no Brasil esse humor que fala mal do negro, que faz piada com as pessoas de cabelo crespo, com a mulher preta, com gays, que traz dentro da piada o racismo estrutural e o racismo recreativo. Para mim, Humor Negro de fato é uma ressignificação do nome que é usado de maneira pejorativa em um humor que fala mal da gente e a gente consegue ressignificar e ter orgulho de fazer um humor negro, feito por pessoas pretas, com piadas pretas e que fala bem da gente. Entendendo que, a partir disso, a gente convoca todo mundo para a luta antirracista, que é uma luta de todos nós, fazendo esse humor bacana, divertido e do bem.

Evaldo Macarrão: Ressignificar a expressão “humor negro” é uma forma de combater com classe e humor a opressão do olhar e lugar racista que sempre nos colocaram e ainda tentam nos colocar. Nunca me vi e nem nunca me coloquei no lugar pejorativo que tentavam com a expressão, por isso sempre lidei de forma consciente e sagaz, atento a denunciar com a minha arte que também é meu corpo preto político em movimento.

2. Qual o impacto sócio-cultural você acha que o programa vai causar no público?

Jhordan Matheus: Ver um elenco totalmente preto, que fala de preto para preto em um especial de comédia totalmente preto é algo novo. A ideia de ter esquetes também traz muito os diálogos de preto. Vai causar um impacto muito grande, as pessoas vão olhar o Especial do Humor Negro e vão ver a diferença que existe quando se coloca o preto para falar para pretos.

João Pimenta: A gente se vê nas coisas, né? Não adianta apenas consumirmos, termos poder de decisão, de compra, se no fim só sobrarem pra gente os restos dos espaços e dos trabalhos. Pretos precisam se enxergar em locais de destaque para acreditar que é possível. Estarmos nesses locais, impulsiona muita gente a querer estar também.

Niny Magalhães: A identificação vai ser muito forte, temos um elenco muito diverso e acho que o fato das pessoas negras se verem ocupando os lugares, seja nas piadas, seja na TV, já é um impacto.

Sulivã Bispo: Acredito que a principal ferramenta de combate ao racismo é a conscientização. Esse especial Humor Negro foi gravado em Salvador, a cidade mais negra fora da África. E traz também através de um elenco preto, uma produção preta e um diretor preto. Ou seja, é um produto feito por pretos, produzido por pretos, dirigido por preto, é de fato uma celebração. É um convite para que essa conscientização possa se expandir não só na palavra, mas no ato e na ação. Isso é muito importante, principalmente, no momento em que a gente vive no Brasil. É um momento de findar os preconceitos, mas é um momento de se conscientizar por inteiro. É de fato você sorrir com consciência e entender que até mesmo o riso é revolucionário, porque a negritude existe para transformar, conscientizar e enaltecer o quanto é bom ser preto.

Evaldo Macarrão: Impacto de mobilização e conscientização social! O especial Humor Negro vem reafirmar a nossa existência intelectual e profissional também na TV. E ao mesmo tempo convocar a todes a estarem atentos aos nossos corpos que ainda são negados e silenciados por um sistema racista em sua estrutura que é desigual, que é desumano.

Val Benvindo: Acho que o impacto sócio-cultural que vai causar no público é o de identificação. São pessoas pretas na tela, então as pessoas se identificam, se percebem. A narrativa é de pessoas pretas, o que elas viveram, e mesmo sendo em lugares diversos, a negritude em si é muito diversa, mas em algum lugar a gente se encontra. Tem uma identificação no ver, no ouvir e também no sentir, porque tem a subjetividade de entender que por trás das câmeras tem pessoas pretas trabalhando no texto, na direção, no figurino, nas câmeras, no áudio. São pessoas pretas trabalhando em diversos âmbitos, que são historicamente ocupados por pessoas brancas. É sempre através de um olhar branco que a gente se percebe, e dessa vez a gente se vê sob uma ótica preta e isso é impactante demais para quem está assistindo.

3. Você acha que o humor é um aliado no combate ao racismo?

Jhordan Matheus: Acredito que o humor é aliado em qualquer combate, principalmente ao racismo. No palco, você consegue fazer piadas que vão fazer com que as pessoas saiam de lá refletindo sobre alguma atitude dela ou que ela cruzou no caminho. A piada faz com que você fique pensativo e depois disso tudo muda.

João Pimenta: O humor consegue dialogar com todas as camadas sociais. Isso é bom e é ruim ao mesmo tempo. Enquanto existe irresponsabilidade em alguns discursos, que reproduzem todo tipo de preconceito e crime, dizendo que é piada, eu estou indo contra isso. Estou realmente em combate nessa área, tirando essa normalização da violência contra nós.

Niny Magalhães: 100%. Muitas pessoas não entendem vários termos que a gente usa para explicar e a linguagem do humor é importante. Para rir, você precisa pensar. Pensou, entendeu e riu. Eu acredito que o humor e a comédia stand-up são aliados sim.

Sulivã Bispo: O humor, diferentemente de outros gêneros, consegue tirar do ser humano algo muito extraordinário, que é a conscientização através da alegria. Quando a gente faz humor conscientizado, a gente está revolucionando. O bobo da corte nos reinos, por exemplo, traz polêmicas através da ironia. Ele ironiza o que fala, ironiza contos, e ali ele consegue plantar sementes que viram verdadeiras celeumas. É muito importante a gente trazer esse humor que conscientiza, que fala bem da gente. Afinal, o humor brasileiro sempre falou mal do povo preto. Quando a gente traz essa graça e diz que é possível a gente sorrir sem se desmerecer, sem se depreciar, sem falar mal. Então, está todo mundo preto, bonito, cabelão black, trançado, elegante, bem-vestido. É de fato uma celebração.

Evaldo Macarrão: Sim! A gente pode falar, combater e denunciar a tortura, a dor, a violência, a desgraça, e analisar, refletir tudo isso rindo do opressor, e não de quem sofre.

Val Benvindo: O Humor Negro com certeza é. Durante muito tempo, o humor que a gente está acostumado a ver, feito por e para pessoas brancas, foi um aliado do racismo. E o Humor Negro vem para combater isso, para ser uma válvula de escape. É importante entender que nem tudo que a gente fala é sobre o combate ao racismo, nem sempre a gente racializa a pauta. A gente racializa porque o racismo está aí, porque a gente precisa ser combativo o tempo inteiro. Mas às vezes a gente só quer rir e contar histórias engraçadas. E talvez isso seja também um aliado no combate ao racismo porque a gente dá uma desanuviada, relaxa, fala sobre coisas corriqueiras da nossa vida, de uma forma geral. Infelizmente a gente precisa falar e combater muito o racismo ainda, mas eu acho que o humor feito por pessoas pretas, como qualquer manifestação, ajuda no combate ao racismo, porque é a gente fazendo e falando para os nossos e a gente ri junto. A maior onda do Humor Negro é rir junto com os nossos, sabendo que a gente não é alvo de chacota. A gente até pode ser protagonista da piada, mas não de um jeito pejorativo.

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