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| Eliana Alves Cruz, Lázaro Ramos e Gilberto Porcidonio. Créditos: Ana Paula Amorim |
No episódio inédito de ''Espelho – 20 Anos Depois'', que vai ao ar no dia 3 de abril, às 22h, Lázaro Ramos recebe a escritora Eliana Alves Cruz e o jornalista, roteirista e pesquisador Gilberto Porcidonio para uma conversa que articula memória, trajetória profissional e os desafios do presente. Ao longo da entrevista, o trio debate as transformações do Brasil nas últimas duas décadas, o percurso da literatura negra no país, os impactos da ditadura militar nas experiências da população negra, os processos de criação e os dilemas contemporâneos diante do avanço da inteligência artificial, além de reflexões sobre futuro, esperança e permanência.
Ao relembrar como era sua vida há 20 anos, Eliana volta ao período em que trabalhava com esporte, cobrindo os Jogos Pan-Americanos, e era mãe de apenas um filho. A partir dessa memória, Lázaro amplia a reflexão ao perguntar que Brasil era aquele. ''Era um Brasil que era outro lugar, outro mundo. A Conceição Evaristo tinha lançado 'Ponciá Vicêncio' e foi quando despertei e comecei a fomentar na cabeça a ideia de também escrever. [...] Grande parte da população estava menos armada no espírito. Vimos essa virada de um país altamente bélico em muitos sentidos, verbalmente'', afirma a autora, que também destaca avanços: ''Acho que a gente amadureceu, ganhamos espaço, olha o 'Espelho' com 20 anos, quem diria que iria durar tanto.''
A escritora também compartilha o início de sua trajetória literária, marcada por dúvidas e recomeços. ''Acho que são jornadas de uma vida inteira. [...] Eu fiquei escondendo de mim mesma porque a gente tem um monte de crenças limitantes''. A virada veio em um momento de crise: ''Por questões de saúde tive que parar. E nessa parada eu comecei a pensar: 'será que é isso mesmo que eu quero para a minha vida?'. Fui começando devagarinho com vergonha de mim mesma [...] Em 2010, coloquei o bloco na rua''.
Lázaro também relembra seus próprios desafios no início da carreira. ''Eu tinha o fantasma da escassez, do vai dar errado, do não ter espaço para mim'', diz, ao introduzir o debate sobre o mercado editorial e as oportunidades para autores negros. Eliana responde de forma direta: ''Foi na cara e na coragem. Eu achava que ninguém ia ler esse livro [''Água de Barrela''] porque eu entrava nas livrarias e não via nada semelhante''. A mudança veio com o reconhecimento: ''Quando apareceu um concurso da Fundação Cultural Palmares em 2015 [...] ganhei o concurso. E pensei: 'eu acho que sei fazer isso!' ''.
Na sequência, Gilberto Porcidonio entra na conversa trazendo sua experiência com a audiossérie ''Chumbo e Soul'', que aborda a resistência da população negra durante a ditadura militar. ''Ela fala sobre a resistência da população negra brasileira durante a ditadura militar usando a música como fio condutor e também a minha família'', explica. Ao comentar o período, ele aponta invisibilizações históricas: ''O que as pessoas negras sofreram na ditadura não é encarado como perigo de exceção [...] sendo que foi quando a ditadura foi mais agressiva''.
A conversa avança para os significados de celebração nas trajetórias de ambos. Para Eliana, o maior reconhecimento está no impacto de suas obras: ''A principal celebração é o tanto de gente que lê essas obras e começa a olhar para sua própria história de uma forma muito poderosa''. Ela também destaca a construção de um projeto literário voltado à complexidade das experiências negras: ''Pensar na inteireza das pessoas negras no país que foram muito fragmentadas.''
Gilberto, por sua vez, celebra a realização de um desejo antigo. ''Eu estou celebrando muita coisa, um desejo desde a infância de contar essa história do Movimento Black Rio''. Ao revisitar memórias familiares, ele também levanta um dilema narrativo: ''São histórias de muita pobreza, de muito sofrimento [...] Como fazer essa história sem machucá-los?''
Eliana complementa o debate ao refletir sobre memória e dor: ''Ao mesmo tempo em que a gente não pode esquecer algumas coisas, a gente não pode fazer dessas feridas o nosso único mote''. Para ela, é preciso equilibrar lembrança e construção de futuro: ''Temos uma história que não foi contada ainda [...] mas acho que estamos conseguindo.''
O episódio também aborda os impactos da inteligência artificial na criação artística. Gilberto adota uma perspectiva otimista: “Eu gosto muito dessa ideia do afropessimismo, mas uso isso para alimentar o meu otimismo. [...] A inteligência orgânica vai ser mais valorizada”. Já Eliana reconhece o medo como parte do processo, mas aponta caminhos: “O medo é um sentimento protetor [...] A IA é fórmula e ela aprende com a gente. Acho que o bonito do ser humano é o erro”.
Encerrando a conversa, Lázaro questiona os próximos passos dos convidados. Gilberto reforça o desejo de continuar produzindo: ''Quero viver de escrita, da ideia, da criatividade''. Eliana, por sua vez, projeta o futuro a partir da coletividade: ''Tenho o sonho de que continuaremos escapando de muitas estatísticas [...] e que muita gente também consiga driblar''. Entre utopia e esperança, ela conclui: ''Sentimos que somos parte de uma corrente muito grande [...] isso me dá um certo alívio e uma esperança para o futuro''.
Espelho – 20 Anos Depois (12X25') – Inédito
Horário: Sexta, 03/04, às 22h
Alternativos: 05/04, às 10h30; 07/04, às 14h30; e 08/04, às 19h
Episódio: Eliana Alves Cruz e Gilberto Porcidonio - Temp.16 Ep10
Direção: Lázaro Ramos
Classificação: Livre
Sinopse: Eliana Alves Cruz fala da sua trajetória como escritora e passeia por algumas de suas obras. Gilberto Porcidonio comenta sobre a audiossérie ''Chumbo e Soul'' e a resistência negra durante a ditadura.
