Pernambucano, bissexual e morador da Rocinha: conheça Maycon, personagem do especial 'Falas de Orgulho'

Divulgação Globo

Sábado de sol pode ser um dia de descanso para muitos cariocas. Para Maycon, 28 anos, morador da Rocinha, no Rio de Janeiro, é só mais um dia de muito trabalho. O jovem, que nasceu em Pernambuco e veio para o Rio aos três anos, atravessa a autoestrada Lagoa-Barra bem cedinho e parte para a Praia de São Conrado, onde trabalha como barraqueiro. Maycon, que se identifica como bissexual, explica a sexualidade de forma muito natural: "Não tem um começo, um marco zero. Quando você é hétero, não tem um início. Não tem como saber quando a pessoa começa a ser uma coisa que não se começa". O jovem é um dos personagens de 'Falas de Orgulho', especial que a Globo exibe na noite de hoje (28), Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, logo após 'Império'. 
  
Dos 18 aos 21 anos, o jovem conta que dançava ballet e que lá conheceu a sua primeira namorada. Apesar de estar em um relacionamento hétero, Maycon conta que já passava por homofobia: "As pessoas me taxavam de 'viado' por causa do ballet. Mas eu nunca liguei para a opinião dos outros. Eu faço as coisas que eu quero. Quando eu senti vontade de beijar uma pessoa do mesmo sexo, fui lá e beijei". O jovem também conta como reage diante das tentativas de constrangimento. "Como a maioria dos meus amigos é LGBT, a gente simplesmente dá as mãos, anda abraçado e fica debochando da cara dos outros. É assim que eu rebato o preconceito", finaliza.
 
Confira mais detalhes na entrevista abaixo. 
 
Entrevista com Maycon
 
Me fala um pouco de você e de quando começou a se entender LGBT. 
Eu nasci em Pernambuco, mas vim para o Rio muito pequeno. Morei em algumas casas que a minha mãe trabalhava até os 6 ou 7 anos e depois a gente veio para a Rocinha. Há três anos, minha mãe voltou para Pernambuco e hoje moro sozinho. Eu e meus três gatos. Não tem um começo [para se entender LGBT], um marco zero. Quando você é hétero, não tem um início. Não tem como saber quando a pessoa começa a ser uma coisa que não se começa. 
 
Como é a sua relação com a sua mãe? Ela é tranquila com a sua sexualidade?
Hoje em dia a nossa relação é ótima, mas a gente briga às vezes. Nós somos muito parecidos, temos pavio curto. Ela ficou sabendo [da minha sexualidade] pela produção [do especial]. Me perguntaram se poderiam falar com a minha mãe e eu falei que tudo bem. Ela ficou sabendo assim, quando ligaram. Mas ela é muito tranquila, eu já sabia que a gente não teria nenhum problema com a minha sexualidade. 
 
Você já passou por algum tipo de preconceito por homofobia?
Até passei, mas como a maioria dos meus amigos é LGBT, a gente simplesmente dá as mãos, anda abraçado e fica debochando da cara dos outros. Dos 18 aos 21 anos eu dançava ballet. E as pessoas me taxavam de 'viado' por causa disso. Mas eu nunca liguei para a opinião dos outros. Eu faço as coisas que eu quero. Quando eu senti vontade de beijar uma pessoa do mesmo sexo, fui lá e beijei.  
 
Como você enxerga a luta LGBTQIA+ atualmente? O que falta conquistar?
Eu acho que ainda não temos essa igualdade que o pessoal quer e idealiza. A homosexualidade não é uma coisa de agora, é milenar. Sempre existiu na humanidade e até entre animais, mas pessoas seguem achando que não é normal. Acho que o mais importante é deixar cada um viver sua vida do jeito que quiser.  


O Especial
 
Nesta noite (28), data em que se celebra o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, a TV Globo apresenta a trajetória de uma comunidade plural, pessoas completamente diferentes entre si mas que se reconhecem em um ponto em comum: o orgulho de ser livre, de se relacionar sem preconceitos, de existir e de ter voz. O especial será exibido ainda no GNT, dia 30 de junho, e no Canal Brasil, dia 2 de julho. 
 
'Falas de Orgulho' mostra a jornada de oito personagens de diferentes idades, regiões, trajetórias de vida e religiões – e por trás delas, histórias de superação, preconceito e auto aceitação, passando por temas transversais às letras que formam a sigla LGBTQIA+ - que culminam na celebração de poder ser quem se é e na exaltação dessas vozes. São eles: Richard Alcântara, 24, jovem transgênero de Caçapava, interior de São Paulo, que sonha ser bombeiro civil; Ariadne Ribeiro, 40, mulher transgênero que é assessora de apoio comunitário da Unaids/ONU; Geisa Garibaldi, 37,   a lésbica carioca é criadora do 'Concreto Rosa', empresa de serviços de mão de obra feminina; Ângela Fontes, 69, enfermeira aposentada que só falou abertamente sobre ser lésbica na terceira idade; Fábio, 30, jovem gay de São Paulo que da vida à drag queen Sasha Zimmer; Mário Leony, 46, homem gay de Aracajú, que é delegado da Polícia Civil há 20 anos; Maycon Douglas, 27, jovem bissexual que trabalha como barraqueiro na praia de São Conrado e mora na Rocinha, comunidade da Zona Sul do Rio de Janeiro; e Mariana Ferreira, 35, médica bissexual, que tem um consultório particular e trabalha como ginecologista do SUS.
 
Para contar essas histórias, a equipe do 'Falas de Orgulho' percorreu diversos estados do país e acompanhou essas pessoas em seu cotidiano: na intimidade de suas casas, trabalho e no dia a dia com os amigos. Além de dar voz a essa luta na frente das câmeras, o especial também reflete a diversidade nos bastidores, em uma equipe majoritariamente LGBT em diversos setores: desde a direção, passando pelos assistentes, fotografia e roteiristas. 
 
Clipe com Pabllo Vittar, Johnny Hooker e Majur
 
Para o 'Falas de Orgulho', além dos bastidores do dia a dia desses oito personagens, o público também terá a oportunidade de ouvir seus depoimentos: as histórias marcantes de suas vidas contadas em primeira pessoa em estúdio. Um momento que promete muitas emoções - tanto para eles, quanto para os espectadores. Ao final, a diversidade será celebrada em um clipe musical exclusivo do hit "Flutua", do cantor Johnny Hooker, com participação de Pabllo Vittar e Majur. 
 
Conheça os personagens de 'Falas de Orgulho':
 
Richard Alcântara, 24 anos - O jovem de Caçapava, interior de São Paulo, tinha 15 anos quando contou para mãe, Rosinete, que era um homem transgênero. Richard já foi agredido por um policial e tem que lidar com ofensas quando usa o banheiro masculino em locais públicos. Richard faz terapia com hormônios e espera na fila do SUS pela cirurgia de retirada dos seios.
 
Ariadne Ribeiro, 40 anos - Na infância, quando já manifestava sua identidade de gênero feminina, sofreu com o preconceito na escola e na família. Mais tarde, precisou se prostituir para não passar fome e, na rua, foi estuprada e contraiu HIV. A virada veio por meio da educação: se formou em pedagogia, concluiu mestrado e doutorado em psiquiatria. Aos 27 anos, fez cirurgia de redesignação de gênero. Ariadne é assessora de apoio comunitário do Unaids - programa que coordena onze agências da ONU nas ações que visam o fim do HIV/AIDS até 2030.
 
Geisa Garibaldi, 37 anos - Moradora do subúrbio do Rio, Geisa "pega no pesado" para sustentar a casa. A carioca, que é pedreira e eletricista, tem uma microempresa, a Concreto Rosa, que oferece serviços de mão de obra executados exclusivamente por mulheres. Geisa tem um filho, Kaetano, de 11 anos, que vê com naturalidade a sexualidade da mãe.
 
Ângela Fontes, 69 anos - Nascida numa família católica, Ângela precisou viver seus relacionamentos com outras mulheres às escondidas. Paulista de Luiziânia, interior do estado, Ângela revelou sua sexualidade para a família de forma inusitada e já na terceira idade. Ela e a esposa deram uma entrevista ao Portal G1 após a estreia da novela 'Babilônia' e foram pegas de surpresa pela repercussão - e pelos parentes de Ângela, que, ao lerem a reportagem, deram todo o apoio ao relacionamento.
 
Fábio (Sasha Zimmer), 30 anos - O jovem do interior de São Paulo foi criado pela avó materna, que o expulsou de casa aos 17 anos. Se mudou para Campinas e lá começou a "se montar" e explorar o universo drag. Foi quando, após perder a avó e em quadro de depressão, viu em Sasha Zimmer, sua drag persona, a oportunidade de dar a volta por cima: conseguiu trabalhos, ganhou concursos e atualmente mora em São Paulo. 
 
Mário Leony, 46 anos - Mário é delegado da Polícia Civil há 20 anos e atua na divisão de homicídios, em Aracaju (SE). Criado por pais conservadores, o aracajuano teve grandes dificuldades em aceitar a própria sexualidade ao longo da sua trajetória. Atualmente Mário está casado há 13 anos e, desde 2010, integra um grupo que combate a LGBTfobia na polícia.
 
Maycon Douglas, 27 anos - Morador da Rocinha, o jovem se mudou de Pernambuco para o Rio de Janeiro aos três anos com a mãe, Dona Carmelita. Ao longo de sua adolescência, quando ainda não tinha entendimento sobre a sua bissexualidade, Maycon já precisava encarar preconceitos e era alvo de "piadas" por parte dos amigos e vizinhos.
 
Mariana Ferreira, 35 anos - De origem humilde, Mariana foi a primeira na sua família a frequentar a universidade. Formada em medicina pela UERJ e profissional do SUS, a carioca chegou a se casar na igreja e viver um lado mais "convencional" da sua sexualidade. Foi somente após o divórcio, aos 28, que Mariana decidiu viver livremente e passou a também se relacionar com outras mulheres.
 
‘Falas de Orgulho’ tem direção artística de Antonia Prado, direção de Washington Calegari e roteiro assinado por Carlyle Junior, com produção de Beatriz Besser. Rafael Dragaud é o diretor executivo e Mariano Boni, diretor de gênero. O especial vai ao ar na TV Globo no dia 28 de junho, logo após 'Império'; e será exibido ainda no GNT, dia 30 de junho, e no Canal Brasil, dia 2 de julho. 
Anderson Ramos

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